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sábado, 8 de novembro de 2008

AONDE EU BOTEI MEU ÓCULOS??


Fiquei observando a minha cliente. Ela estava irritada, sem graça, começou a revirar a bolsa toda e foi tirando coisas lá de dentro e foi tirando e foi tirando... até que - UFA! Ela achou a cadernetinha de anotações onde ela escrevia todas as suas dúvidas para me falar durante a consulta. Ela dizia que a mente dela dava brancos, que ela sempre se esquecia de tudo e que por isso ela escrevia tudo. Mas infelizmente, logo em seguida, mais uma vez, ela queria achar alguma coisa e não achava... era a vez do óculos. Sem óculos ela não enxergava nada. Ela foi ficando muito irritada porque não achava o óculos, e chorou que nem criança querendo uma bala. O óculos estava na cabeça dela. Eu fiquei imóvel, vendo todo aquele sofrimento. Quando eu lhe disse que seu óculos estava em sua própria cabeça, ela chorou mais ainda, de alívio e de sofrimento, e de vergonha e humilhação. Deixou a cadernetinha no braço do sofá ao lado onde ela estava sentada e passou a falar de sua vida, que desde sempre ela foi assim, cabeça de vento, cabeça oca, cabeça de abóbora, maluca, etc. E o pior de tudo é que ela passava muitos vexames na frente dos colegas, pois até a professora se irritava com ela. Seus lápis, de tanto cair no chão, não tinham ponta, as canetas mordidas, os cadernos todos desenhados com florezinhas e um monte de manchas roxas pelo corpo, porque estabanada que nem era, batia e se machucava toda hora. Chegava atrasada a todos os compromissos, saía sempre atrasada de casa, sempre aos berros querendo saber aonde tinha deixado alguma coisa. Ela cresceu assim. Entre risos e lágrimas, entre sonhos e fracassos. Era desacreditada por todos, já tinha pego a fama de maluquinha. Foi muito difícil tratar essa paciente. Ela não conseguia ouvir. Não entendia o que eu falava. No ASRS-18, um questionário de DDA e TDAH para adolescentes e adultos, ela preencheu todos os critérios da parte de desatenção e quase todos da parte de hiperatividade e impulsividade. Na história familiar, ela me disse que a mãe era desastrada que nem ela, que gostava de fazer piadas e que não conseguia botar ordem na casa. De tanta bagunça, o pai foi embora de casa. E foi o pai que mandou a minha paciente me procurar. Porque ela mesma, de tão desatenta que era, nem se tocou que ela poderia ter um transtorno ou um problema que tivesse tratamento. Chamei o pai e expliquei a ele tudo sobre o DDA/TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Ele ficou perplexo: - Eu sabia que elas (a ex-mulher e a filha) tinham alguma coisa, que aquilo não podia ser normal !!! mas a minha paciente não gostou de receber esse diagnóstico e ficou repetindo que não tinha problema mental nenhum. E só aceitou fazer uma terapia. Remédio, nem pensar !! cheguei a fazer uma tentativa, chamei a mãe e foi uma tragédia. A mãe era agitada, dispersa, trabalho não conseguiu me ouvir e saiu dizendo que a filha era aquilo mesmo, que era mal de família... todo o meu discurso, toda a minha “psicoeducação”, tudo o que eu falei, sumiu dentro de suas mentes desatentas, inquietas e impulsivas. Hoje, quatro meses depois, a minha paciente está começando a perceber quantas coisas ela faz e fala por impulso, sem pensar e nas tantas perdas que já sofreu por conta disso... hoje, também, ela já consegue ouvir, já aceitou ler alguns folders que eu lhe dei, já acessa alguns sites e já não se irrita quando eu falo no TDAH. Hoje ela já sabe que existe um remédio super eficaz para aliviar todo aquele sofrimento. E que ela pode ficar diferente de sua mãe, mais calma, menos impulsiva, mais atenta. Hoje, ao sair da consulta, deixou o celular, que havia caído do seu colo, na poltrona. Depois voltou pra pegar e disse pra mim: “é, eu acho que eu tenho TDAH mesmo...” e foi embora pensativa.

domingo, 20 de julho de 2008

A QUALIDADE DE VIDA NO ADULTO COM TDAH


Reconhecido mais facilmente em crianças e adolescentes, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, distúrbio neuropsiquiátrico conhecido pela sigla TDAH, vem sendo diagnosticado a cada dia em maior número de pessoas adultas.Dificuldades em manter a atenção e a concentração, descuido em atividades, inquietude e falta de organização são alguns dos sintomas clínicos mais comuns do TDAH registrados em adultos, segundo o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr).
Em entrevista concedida ao Correio do Estado, MS, caderno B, 09/07/2007, Antônio Geraldo afirma que "entre 60% e 80% dos casos deste tipo de síndrome diagnosticados na infância prevalecem na fase adulta", e acrescenta que uma média de 11% das crianças que sofrem de hiperatividade tem um dos pais diagnosticados com TDAH. Conforme disse, estima-se que 4% dos adultos possam sofrer do transtorno. Além dos sintomas citados, estudos comprovam que os portadores do transtorno se envolvem em mais acidentes de trânsito que os demais, explica o Dr. Paulo Mattos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista ao Correio do Estado, MS, 2007. "Quando os acidentes ocorrem com adultos diagnosticados com a síndrome, eles tendem a ser mais graves, indicando que o transtorno está relacionado à falta de atenção de forma a colocar em risco a vida das pessoas, portadoras ou não do TDAH", afirma Paulo Mattos.Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), a ocorrência do TDAH não está atrelada a fatores culturais, ou como resultado de conflitos psicológicos. De acordo com eles, a explicação está em pequenas alterações na região frontal do cérebro, responsável pela inibição do comportamento e do controle da concentração.Segundo a Dra. Evelyn Vinocur, especialista em psiquiatria de adultos e neuropsiquiatra em saúde mental da infância e adolescência, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem reduzir significativamente o impacto adverso causado pelos sintomas do TDAH em todos os setores da vida da pessoa, seja a nível social, afetivo, acadêmico ou laborativo. Para tanto, é essencial uma avaliação do nível de funcionamento na infância, adolescência e na vida adulta, história de vida detalhada, avaliação da história de adaptação psicossocial, avaliação cognitiva, sempre pensando nos possíveis diagnósticos diferenciais e presença de comorbidades.O TDAH em adultos muitas vezes tem sido visto como uma doença camuflada, devido ao fato dos sintomas se internalizarem, ficando “mascarados”, dificultando muitas vezes que o especialista perceba a presença de problemas de relacionamento afetivo e interpessoal, de organização, problemas de humor, abuso de substâncias, ou até mesmo a presença de comorbidades.Desta maneira, o diagnóstico pode se tornar difícil e os adultos e, principalmente as mulheres, ficarem sem diagnóstico e tratamento por muitos anos.Outros sintomas observados com com maior freqüência no TDAH em adultos (quando comparados a pessoas sem o transtorno):- Eles costumam apresentar dificuldade nos relacionamentos, com relações afetivas instáveis (separações, divórcios);
- instabilidade profissional que persiste ao longo da vida;
- rendimento abaixo de suas reais capacidades no trabalho e na profissão; -
- falta de capacidade para manter a atenção por um período longo;
- falta de organização (carente de disciplina);
- insuficiente capacidade para cumprir o que se comprometem; incapacidade para cumprir uma rotina; - esquecimentos, perdas e descuidos importantes;
- depressão e baixa auto-estima;
- dificuldades para pensar e se expressar com clareza;
- tendência a atuar impulsivamente e interromper os outros;
- dificuldades de escutar e esperar sua vez de falar;
- freqüentes acidentes automobilísticos devido à distração;
- freqüente consumo de álcool e abuso de substância.
Alguns sintomas apesar de não constarem no manual oficial dos transtornos mentais, DSM, são vistos com freqüência, tais como:
- baixa auto-estima;
- sonolência diurna (dormir como uma pedra);
- "pavio curto" (mistura de impulsividade e irritabilidade);
- necessidade de ler mais de uma vez para "fixar" o que leu;
- dificuldade de levantar de manhã, de se "ativar" no início do dia;
- adiamento constante das coisas;
- mudança de interesse o tempo todo;
- intolerância a situações monótonas e repetitivas;
- busca constante por coisas estimulantes ou diferentes e variações freqüentes de humor.
Dificuldades específicas da função de atenção: Adultos com TDAH apresentam uma tendência pronunciada de distração, esquecimento, repetições de erros, além de perderem coisas, não recordarem o que acabaram de ler, de necessitarem perguntar muitas vezes o mesmo e evitarem sistematicamente toda leitura que não seja do seu interesse específico. Geralmente envolvem-se em atividades de pouca atenção e concentração por apresentarem tais dificuldades. Isso não significa não prestar atenção nunca, mas em muitas ocasiões, ou na maioria delas a pessoa está dispersa, "no mundo da lua”.No trabalho, custam a se organizar, permanecer atentas e terminar uma tarefa. O tempo que necessitam geralmente é muito maior do que se espera e rendem mais quando estão sozinhos. Mostram dificuldades também com a memória de trabalho, que permite os processos de comparação, processamento e emissão de uma resposta correta. Adultos com TDAH não são críticos quanto a suas dificuldades de atenção e poucos se dão conta do problema. Isto acontece porque sempre foram dispersos e desatentos, erram repetidamente, perdem coisas, não recordam o que acabam de ler, necessitam perguntar várias vezes a mesma coisa e evitam leitura que não seja de seu interesse específico. E são capazes de dormir ou desligar diante de assuntos que não lhe interessam diretamente, indicando que são pessoas que padecem de um problema de atenção. Muitas vezes mostram uma clara dificuldade para conseguir o mínimo de concentração suficiente para manter qualquer atividade.Ser detentor do diagnóstico de TDAH não significa que não preste atenção nunca, e, sim, que em muitas ocasiões, ou na maioria das vezes, o paciente está disperso. Em outros momentos, pode permanecer concentrado e ser constante numa tarefa. Mesmo que o problema seja crônico não quer dizer que esteja sempre presente. Isto remete ao que muitos autores colocam de que portadores de TDAH mostram a atenção flutuante: em determinados momentos são atentos e em outros não.O tratamento indicado pela ABDA é o multimodal, ou seja, uma combinação de medicamentos, orientação da família e acompanhamento profissional, pelo médico e também através da psicoterapia. Para o Dr. Paulo Mattos, a medicação é imprescindível e tem comprovação científica de eficácia no tratamento. "Pesquisas feitas com simuladores de direção mostram que adultos que sofrem do transtorno cometem mais erros que os normais. Também foi descoberto que estes erros tendem a ser diminuídos com a administração de remédios específicos", explica.Além da medicação, o psiquiatra Antônio Geraldo explica que alguns fatores podem ajudar no cotidiano de pessoas que sofrem do transtorno, como o cumprimento de uma atividade por vez, evitando assumir muitas responsabilidades ao mesmo tempo, estabelecimento de prioridades e até realização de atividades físicas ao longo do dia ou da semana, que ajuda a manter o equilíbrio nas demais atividades do dia, especialmente as obrigatórias e/ ou chatas.Nas mulheresNo sexo feminino, os sintomas do TDAH aparecem de forma marcante através da desatenção, e não da hiperatividade e impulsividade, mais evidentes no sexo masculino. Além disso, elas são freqüentemente menos rebeldes e menos opositivas. Como a comorbidade com os transtornos de ansiedade e depressão são os sintomas mais freqüentes, as mulheres costumam ter uma instabilidade emocional importante, com possibilidades de freqüentes mudanças de humor.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Muita CALMA nessa hora!

O campo estava minado.
Eu teria que harmonizar aquela família, de algum modo, minimamente, ...
Respirei fundo.
Chamei toda a família.
Já tinha conversado um pouco com cada um separadamente
e agora, juntos, começamos a refazer a história do Juninho, desde a sua concepção...
Depois, foi a hora de colher a história do pai, da mãe, como tinha sido a infância, a escolaridade, as relações sociais e de temperamento de cada um.
Foi legal. Juntamos muitas peças do quebra-cabeça.
Fiz um questionário "ASRS18" de sintomas de TDAH para o Juninho. Depois, para os pais também.
Resumidamente, cheguei aos seguintes fatos:
- foi uma criança alegre, amorosa, falante, hiperativa e impulsiva. Pavio-curto. Birras excessivas e não suportava o "não"
- sensível, as vezes sincero demais, por vezes magoava os amigos por bobagens.
- aluno médio a bom. Ficou em recuperação dois anos seguidos.
- adolescente muito impaciente, crítico, foi se isolando dos colegas
- namoros curtos, brigas, ciúmes
- impaciente, largou algumas atividades, ficava tudo chato e sem graça.
- na faculdade, sintomas de desatenção e impulsividade ficaram evidentes
- comorbidade com depressão irritada e ansiosa

Pai = sempre foi péssimo nos estudos, perdeu 2 anos da escolaridade formal.
segundo grau incompleto, "trabalhava muito e não tinha tempo pra estudar"
esforçado mas explosivo. Pediu demissão de empregos bons por se desentender com os chefes.
era rotulado como desmiolado, cabeça-oca.
nunca leu um livro. começava de trás pra frente, folheando,...
dois episódios de depressão ao longo da vida.
Pai já estava no terceiro relacionamento.
Acha que poderia ganhar melhor e que perdeu boas chances na vida pelo seu jeito agitado e intolerante de ser...
Conversei sobre o TDAH com eles. Não conheciam o TDAH.
Coloquei como hipótese diagnóstica para o Juninho, o TDAH com comorbidade com depressão e irritabilidade. Falei que o pai tinha muitos sintomas do TDAH e ele "concordou"...
Ficaram meio desconfiados... céticos.
Dei folhetos sobre o TDAH e uma bibliografia de sites, livros, para eles lerem.
dei o site da Associação Brasileira de Déficit de Atenção - ABDA e mandei eles lerem e relerem com muita atenção.
encaminhei a família para 4 sessões de orientação, psicoeducação.
mediquei o Juninho com antidepressivo e estabilizador de humor.
Marquei novo encontro em 15 dias...
deixei telefone para me ligarem sempre que precisassem.