domingo, 15 de fevereiro de 2009

DEPRESSÃO - SINAIS DE ALERTA, PREVENÇÃO, LOCAIS DE ATENDIMENTO E O CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA




DEPRESSÃO
Mais cedo ou mais tarde, todos somos confrontados com algum acontecimento traumático, como a morte de um ente querido, uma separação ou uma doença, que faz com que, durante algum tempo, a nossa energia vital diminua e nos sintamos vulneráveis. A grande questão é: em que momento exatamente essa resposta, considerada normal, se transforma numa depressão?
Para responder a esta pergunta, é preciso canalizar toda a atenção não só para identificar corretamente se a pessoa sofre de uma depressão, mas também, se for o caso, para evitar que a situação piore. A intenção deste artigo é, de uma forma simples, mas intensa, ajudá-lo nessa árdua tarefa, tanto no caso de estar passando pessoalmente por um quadro depressivo, como para ajudar uma pessoa querida a ultrapassá-lo.
Para tanto, começamos definindo o que significa estar deprimido e que fatores contribuem para o problema. A seguir, fazemos uma breve descrição de algumas terapias individuais, familiares e de grupo, bem como dos medicamentos mais utilizados no tratamento da depressão. Além disso, damos várias sugestões para ajudá-lo a encarar o estresse da vida cotidiana, ultrapassar a ansiedade e manter o equilíbrio essencial entre o corpo e a mente. Para terminar, sobretudo porque as pessoas que sofrem de depressão se sentem quase sempre sós e isoladas, apresentamos uma lista de entidades e outros recursos disponíveis para ajudá-las.
Esperamos que este pequeno guia se revele útil para a compreensão dos fenômenos que estão por trás da depressão e, principalmente, ajude as pessoas afetadas por este mal a entender que não têm de passar por esse processo sozinhas, mas que, pelo contrário, devem procurar ajuda o mais rapidamente possível.
A nível psicológico, o problema de saúde mais comum e, provavelmente, o mais difícil de diagnosticar é a depressão. Porém, tendo em conta que afeta cerca de 100 milhões de pessoas em todo o mundo e que produz um vasto leque de seqüelas sociais e econômicas, não há dúvida de que esta doença deveria ser objeto prioritário de atenção por parte das autoridades de saúde.
É preciso sublinhar que, no Brasil, o número de pessoas afetadas pela depressão provavelmente continuará a aumentar, já que a expectativa de vida é cada vez maior e que lguns dos principais fatores psicossociais que estão na origem deste problema de saúde (o estresse, a competitividade no meio profissional, o isolamento socioafetivo, entre outros) são, também eles, cada vez mais comuns, como veremos no capítulo dedicado aos fatores que predispõem aa esta doença.
Para fazer frente a alguns tipos de depressão, dispomos atualmente de um eficaz arsenal farmacêutico. Todavia, em alguns casos, os medicamentos são ineficazes e, por vezes, até desaconselháveis, sendo mais produtiva uma intervenção que leva à mudança do seu estilo de vida ou da forma como a pessoa encara o seu dia-a-dia, embora, muitas vezes, seja preferível uma intervenção psicoterapêutica. Infelizmente, são freqüentes os casos de uso e abuso de medicação (em geral, porque a solução que vem de fora é mais fácil, pois não exige investimento pessoal na mudança) e, por vezes, mesmo uma administração inapropriada. Referimo-nos, por exemplo, aos medicamentos ansiolíticos, dos quais uma boa parte da população faz uso abusivo.
O aparecimento, o tipo e a freqüência da depressão estão intimamente ligados às particularidades físicas e mentais de cada indivíduo, bem como às condições sociais em que se passa ou se passou a sua vida. É por isso que, na maioria dos casos, seja qual for a gravidade do seu estado, a abordagem do tratamento do doente com depressão deve ser essencialmente de caráter psicoterapêutico, implicando a ajuda de um profissional de saúde mental devidamente qualificado. Este tipo de intervenção é quase sempre fundamental para a compreensão e resolução da depressão.
Quanto à prevenção da depressão, é essencial ter em mente que está estreitamente ligada ao histórico, tanto físico como psicológico, do indivíduo, bem como à sua saúde física, familiar e social (ou seja, o estilo e a qualidade das relações com os familiares, amigos, colegas de trabalho etc.). Neste livro, procura-se, acima de tudo, dar pistas para a identificação rápida de uma situação de início de depressão (através do reconhecimento de estilos de vida que podem resultar no problema). Procura-se, também, apresentar estratégias de ação, no sentido de neutralizar ou atenuar a evolução de um quadro depressivo já existente ou em andamento.

Sinais de alerta

Nas últimas décadas, o termo ‘depressão’ vulgarizou-se e passou a fazer parte da linguagem do dia-a-dia, servindo para designar realidades muito diferentes, desde uma simples tristeza ou perda momentânea de ânimo até um conjunto de sintomas, bem definidos em termos clínicos, a que se dá o nome de depressão maior, verdadeira doença psíquica que pode e deve ser tratada.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas deprimidas em algum momento da sua vida (a que se dá o nome de prevalência) oscila entre 3 e 5% da população mundial. Mas, na verdade, é difícil avaliar a prevalência da depressão em termos tão globais. Nos Estados Unidos, por exemplo, as estimativas apontam para 15% (20% nas mulheres e 10% nos homens). Em Portugal, os números oscilam entre 5 e 8%, sendo que as mulheres têm também duas vezes mais probabilidades de sofrer de depressão do que os homens. Ao todo, estima-se que, por ano, cerca de 1 milhão de portugueses sofra desta doença. No Brasil, a prevalência encontrada situou-se em 15,5%. Um estudo realizado em três capitais brasileiras, Brasília, São Paulo e Porto Alegre, evidenciou prevalências de 1,5%, 1,3% e de 6,7%, respectivamente, adotando o Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, 3ª edição, como sistema diagnóstico. Segundo o Estudo Multicêntrico Brasileiro de Morbidade Psiquiátrica para depressão na população geral, os números oscilam entre 15% e 25%, para homens e mulheres, respectivamente. Isto significa que no Brasil aproximadamente 20 milhões de brasileiros sofrem de depressão (e que 24 a 30 milhões de pessoas apresentam, apresentaram ou virão a ter pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida) sendo que 12,5% dos idosos sofrem de depressão no Brasil.
Estes valores são claramente imprecisos, não só porque muitas pessoas sofrem de depressão sem o saberem, mas também porque outras (especialmente os homens) têm vergonha de pedir ajuda para este tipo de problema. De fato, estima-se que mais de 75% das pessoas com depressão não recebem o devido tratamento – não recorrem ao médico e o seu caso acaba por não ser registrado.
Em 1991, a Direcção-Geral de Saúde fez um Censo Psiquiátrico em 66 hospitais portugueses (públicos e privados) e verificou que a depressão era a segunda patologia psiquiátrica mais freqüente nas consultas e internamentos hospitalares (14,9% das pessoas que recorreram aos serviços de saúde).
Aproximadamente entre 2 e 12% dos indivíduos no Brasil apresentarão depressão no seu ciclo de vida, sendo esses, os índices mais altos entre os pacientes dos serviços de atenção primária, sendo a depressão a patologia psiquiátrica mais freqüente nestes serviços. Um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) conduzido no Rio de Janeiro em 15 centros de atenção primária à saúde mostrou uma prevalência de 29,5% para os transtornos depressivos.18 A maioria dos indivíduos com depressão é atendida pelos serviços de atenção primária, enquanto apenas uma minoria recebe atendimento de especialistas em saúde mental. Um estudo feito no CAPS de Tamboril – Ceará objetivando ver qual o perfil epidemiológico daquela unidade em Saúde Mental, encontrou resultados que mostraram que 80,4% deles encontravam-se na faixa etária de 10 a 49 anos, 50,2% da clientela era solteira, 44,2% não concluíram o ensino fundamental, 45,1% eram trabalhadores em atividade, 30,4% procediam da Unidade da Mulher e 25% estudava. O Transtorno que prevaleceu foi o Transtorno Depressivo Maior.

Além do fato da depressão ser a principal responsável pela incapacidade laboral, é de salientar ainda que 15% das pessoas com depressão prolongada correm o risco de se suicidarem.
Tudo isto faz com que a depressão seja, atualmente, o quarto maior problema de saúde pública conforme dados da OMS que prevê que, nos próximos vinte anos, este distúrbio passe a ocupar a segunda posição da lista, logo atrás dos problemas cardiovasculares.
Para se poder identificar e reconhecer a depressão, é essencial defini-la com a maior precisão possível. Assim, enumeramos os sinais de alerta e os sintomas mais facilmente identificáveis pelo doente e pelos que o rodeiam.

O que é depressão?
O termo ‘depressão’ indica uma grande variedade de estados que afetam tanto o corpo (estados somáticos) como a mente. Este problema de saúde pode ser definido como um ‘distúrbio do humor’ prolongado, que faz com que a pessoa sinta uma tristeza, melancolia e angústia que reduzem acentuadamente a vontade (e a energia) de fazer as tarefas cotidianas, bem como o prazer no desempenho de atividades normalmente apreciadas. Este distúrbio do humor também pode fazer com que a pessoa sofra, com maior ou menor intensidade, de dores físicas (dores de cabeça, por exemplo) ou psíquicas (como a perda da vontade de viver).
Os sintomas reveladores de um estado depressivo são muitos e variados. Aqui, nos limitaremos a citar os mais característicos. De qualquer forma, é preciso destacar que a depressão, tal como é definida do ponto de vista clínico, implica que os sintomas se apresentem ao mesmo tempo e durante um certo período. Assim, para que um profissional diagnostique um estado depressivo maior, é necessário que pelo menos cinco destes sintomas ocorram de forma persistente durante um mínimo de duas semanas.

Sintomas da depressão
A pessoa com depressão sempre sente – às vezes antes mesmo de manifestar qualquer sintoma preciso do seu estado – um mal-estar interno (durante a maior parte do dia, quase todos os dias), devido a uma desvalorização:

– de si próprio: perde a confiança nas suas próprias capacidades, a auto-estima e a noção do seu valor pessoal. Acredita que já não consegue fazer o mesmo que antes;
– da realidade: esta lhe parece difícil, complicada e inacessível. O doente considera-se um derrotado e ressente-se com a inutilidade dos seus atos. Acaba por desistir e deixa de se abrir para o mundo exterior, encerrando-se em si mesmo;
– do futuro: sente-se bloqueado e desesperado. Não vê saída alguma para os seus problemas e é incapaz de visualizar um futuro positivo, sentindo-se vítima de um destino injusto.

Progressivamente, instala-se uma acentuada perda de interesse ou prazer pelas atividades habituais durante a maior parte do dia, quase todos os dias. A seguir, aparecem um ou vários sintomas característicos do estado depressivo:

– diminuição do apetite, com perda significativa de peso (sem fazer dieta) ou, pelo contrário, aumento do apetite, com elevação considerável do peso.
– distúrbios do sono, como ter insônia ou sonolência excessiva (hipersonia), quase todos os dias;
– agitação ou, pelo contrário, lentificação psicomotora (o termo é usado ou tb podemos dizer retardo psicomotor) ou seja, do funcionamento físico e mental) quase todos os dias;
– perda de energia, acompanhada de fadiga constante (quase todos os dias);
– indecisão ou redução da capacidade de pensar e de se concentrar (quase todos os dias);
– sentimento excessivo ou inapropriado de ser indigno (ou seja, de não merecer o que tem ou o que consegue), autocrítica ou culpabilidade;
– pensamentos recorrentes sobre morte, desejo de estar morto, tentativas de suicídio.

Distúrbios do sono
Estima-se que 90% dos pacientes depressivos que consultam um médico sofram de distúrbios do sono. De fato, trata-se geralmente de uma das primeiras queixas da depressão. Dormir mal causa fadiga que, por sua vez, aumenta o mal-estar da pessoa deprimida. Isso provoca uma ruminação intensa e exaustiva de idéias geralmente pessimistas e que capturam a mente da pessoa, tornando-se impossível deixá-las de lado no momento de ir para a cama, instalando-se progressivamente um círculo vicioso. Contudo, é preciso identificar o tipo de distúrbio do sono, já que nem todos se devem à depressão: muitas outras doenças podem ser responsáveis por esse sintoma.
O distúrbio do sono próprio da depressão revela dois aspectos principais, em que a pessoa tem dificuldade em adormecer ou acorda com freqüência durante a noite – principalmente, desperta de madrugada, às vezes com tristeza e falta de vontade para o que quer que seja. Isso não significa, porém, que acordar de madrugada seja sempre sinônimo de princípio de depressão. Prova disso são as pessoas que se levantam logo à primeira hora da manhã, sentindo-se em plena forma. Trata-se, nesse caso, de uma questão de ritmo biológico. Contudo, é necessário levar muito a sério o sinal de alarme real que representa a crise de angústia que acompanha um despertar precoce.
Por sua vez, a sonolência excessiva define-se como uma duração do sono superior a dez horas. Mais uma vez, impõe-se prudência: nem todas as situações de excesso de sono indicam um princípio de depressão. Na verdade, este distúrbio pode decorrer de outras causas:

– certos fatores passageiros, como uma mudança no estilo de vida;
– a ingestão de determinados medicamentos ou o consumo de álcool;
– problemas respiratórios.

A pessoa deprimida que prolonga o seu sono desta forma (por vezes, até 14 horas) tenta recuperar forças, acreditando que o sono prolongado poderá remediar a sua fadiga imensa. No entanto, isso não acontece, já que se trata de um sono perturbado e muito pouco reparador. Na realidade, a pessoa procura, acima de tudo, fugir de uma realidade penosa que não consegue aceitar nem alterar, refugiando-se no sono.

Fadiga e fraqueza
A conseqüência lógica de um sono pouco reparador é a fadiga e o cansaço. “Estou exausto, não consigo me recuperar, o que posso fazer?” Este é um tipo de queixa muito comum nos consultórios médicos.
Com freqüência, o estresse da vida moderna é o primeiro responsável por um estado de tensão que pode levar a um grande cansaço, um estado perfeitamente compreensível e que, na verdade, não é alarmante. Todavia, a pessoa deprimida vive esse cansaço de outra forma: é mais difícil para ela, o seu rendimento diminui sensivelmente, sente-se incapaz de manter as suas atividades cotidianas e, acima de tudo, de empreender outras novas.
Esta diminuição de rendimento pode manifestar-se fisicamente por uma desaceleração do ritmo motor: o andar torna-se mais lento, assim como os gestos. O rosto assume um ar inexpressivo ou o olhar deixa transparecer uma expressão de dor. Qualquer atividade, mesmo a mais rotineira, como tomar banho ou preparar as refeições, pode tornar-se difícil e requerer um grande esforço. Em alguns casos graves, pode acontecer de a pessoa começar a se descuidar fisicamente, não prestando a devida atenção à sua higiene pessoal nem ao vestuário.
A queda do rendimento também se manifesta psiquicamente: a pessoa deprimida sente dificuldade em se centrar e manter a atenção, o seu pensamento é mais lento e ele não consegue expressar-se com facilidade. Geralmente, torna-se uma pessoa mais calada. Além disso, abandona as atividades habituais e os seus passatempos, que não lhe proporcionam mais qualquer prazer. Deixa de se interessar pela informação sobre o mundo exterior, evitando contatos ou encontros, ler jornal e ver televisão. Também se desinteressa pela atividade sexual, podendo abandoná-la por completo.
Apesar de tudo, é importante salientar que, ao contrário do que se possa pensar, as faculdades intelectuais permanecem inalteradas?, tratando-se, simplesmente, de um desinteresse generalizado e de uma profunda apatia. Na depressão ocorre o que chamamos de transtornos cognitivos como prejuízos na atenção e concentração, principalmente. As faculdades intelectivas permanecem inalteradas após o tratamento da depressão, pois a depressão altera as funções cognitivas, como atenção, concentração, falhas de memória, prejudica a capacidade de julgamento e crítica, uma vez que os pensamentos ficam distorcidos, sempre pessimistas e sombrios, sob uma ótica negativista, ...


O sentimento de indignidade
Quando uma pessoa está deprimida, deixa de se sentir digna da confiança que os outros depositam nela, tendo a impressão de não merecer isso, bem como outras coisas boas que lhe possam acontecer. Caso esteja vivendo uma situação que seria normalmente agradável e prazerosa, não consegue desfrutar dela. Considera que não fez nada para a merecer e que se trata de uma mera casualidade.
Por outro lado, com freqüência, se culpa exageradamente pelos fatos infelizes que lhe ocorrem. Mas essa situação também pode se inverter: a pessoa deprimida passa a acusar os que a rodeiam de todos os seus males, considerando-se uma vítima.
Em síntese, o deprimido perde a capacidade de analisar objetivamente os fatos e os acontecimentos e de avaliar corretamente as circunstâncias e as responsabilidades.

A ansiedade
A depressão é, muitas vezes, acompanhada de ansiedade. Esta se caracteriza por uma série de sintomas físicos e psíquicos bem determinados, como, por exemplo:
– suores;
– aceleração do ritmo cardíaco;
– alterações na respiração (torna-se ofegante);
– antecipação de perigo imediato, que tanto pode ser uma eventual doença como a morte, freqüentemente imaginada de uma forma atroz e brutal;
– comportamentos de esquiva, que visam evitar a ansiedade (por exemplo, recusa ir a locais muito freqüentados ou desconhecidos).

Em geral, este transtorno emocional é provocado por situações novas, nas quais o desconhecido é sinônimo de perda de segurança e a pessoa não consegue se ‘organizar’. Mas é importante salientar que qualquer pessoa pode viver momentos de ansiedade, sem que tenha uma depressão.
As características mais comuns da ansiedade associada à depressão são:

– Ocorre com tamanha intensidade que vai além do controle da pessoa e se torna algo insuportável;
– É freqüente ou mesmo constante, manifestando-se de forma crônica;
– A pessoa relata fatos inexistentes, aparentemente de pouca importância (para os outros) ou sem nenhuma relação aparente com a inquietação que manifesta;
– Impede que a pessoa faça frente às dificuldades e encontre uma solução satisfatória, tanto para si como para os outros.



Quem é ansioso dramatiza os acontecimentos, os sintomas e os conflitos. Exagera de forma persistente em alguns aspectos do problema, sendo incapaz, quando a ansiedade atinge um certo grau, de compreender o significado profundo daquilo que está vivendo. Sente uma certa apreensão perante os outros, considerando-os, com freqüência, juízes (teme ser mal julgado) e, quando está em grupo, sente-se inseguro. Fica melindrado diante da menor falta de atenção por parte dos que o rodeiam. Tem um sentimento exagerado em relação à sua insuficiência e subestima as suas capacidades, o que o impede de reagir de forma adequada no devido momento. Só mais tarde lhe ocorrem os argumentos que deveria ter invocado ou a atitude que poderia ter adotado. Por isso, também tem uma tendência mais ou menos acentuada para se sentir derrotado. O mínimo problema que ocorre lhe traz inquietação e pessimismo.
Para justificar estas atitudes perante si mesmo, a pessoa se defende, conscientemente ou não, adotando rapidamente um estilo de vida que pode ser mais ou menos inadequado. Assim, com freqüência, é perfeccionista, meticulosa e muito rigorosa em relação a princípios de vida bastante rígidos. Está constantemente fazendo uma série de projetos, embora o futuro concreto se lhe apresente sempre como ameaçador. Mesmo quando tudo corre bem, tem a impressão de que pode dar errado a qualquer momento.
Além disso, podem surgir transtornos somáticos (ou seja, transtornos físicos que não obedecem a nenhuma lesão orgânica concreta). Também podem ser chamados de transtornos neurovegetativos, tratando-se, principalmente, de perturbações cardiovasculares, respiratórias, gastrintestinais (em particular, náuseas e vômitos ou dores na região do estômago), distúrbios sexuais ou urológicos, dores musculares cervicais e dorsais, dores de cabeça (ou mesmo enxaquecas) ou alterações do sono. Estes distúrbios somáticos são muito variáveis e podem surgir apenas em determinados momentos. Também podem estar no primeiro plano das preocupações da pessoa, como máscara para o verdadeiro problema: a ansiedade. De fato, é comum que, quando vá ao médico para pedir ajuda, fale apenas do seu mal-estar físico, podendo induzir o especialista em erro e fazê-lo passar ao largo da causa subjacente aos distúrbios, ou seja, a ansiedade.

O risco de suicídio
É importante saber que a depressão pode levar ao suicídio. As estatísticas são alarmantes: mundialmente, o suicídio é tido como a terceira causa de morte entre os adolescentes e os jovens adultos, sendo a oitava causa de morte em todas as idades. Estima-se que, todos os anos, morra cerca de um milhão de pessoas por suicídio. No nosso país, em 2003, registaram-se 1 148 suicídios (ou seja, 11 mortes por cada 100 mil portugueses). No Brasil, estima-se uma taxa de 7,2/100.000 habitantes. Esta taxa deve ser ainda mais elevada, já que a maioria dos casos de suicídio é reportada como morte natural.


A DECO PROTESTE conduziu, há algum tempo, um inquérito sobre suicídio em Portugal. Verificou-se então que mais de 40% das pessoas com ideias suicidas não falaram com ninguém sobre o assunto. E três em cada 200 pessoas afirmaram ter tentado o suicídio nos 12 meses que precederam o estudo (para mais informações, não deixe de ler o artigo “Prevenir o suicídio”, na revista Teste Saúde n.º 44, de Julho de 2003).

Em final de 2005, o Ministério da Saúde montou um grupo de trabalho com a finalidade de elaborar um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, com representantes do governo, de entidades da sociedade civil e das universidades. Em 14 de agosto de 2006 foi publicada uma portaria com as diretrizes que deverão orientar tal plano. Os principais objetivos são 1- desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida e de prevenção de danos, 2- informar e sensibilizar a sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido, 3- Fomentar e executar projetos estratégicos nos casos de tentativas de suicídio, 4- Promover a educação permanente dos profissionais de saúde da atenção básica, inclusive do Programa Saúde da Família, entre outros. O Brasil será o primeiro país da América Latina a elaborar e a executar ações de prevenção do comportamento suicida, com o lançamento do manual de prevenção de suicídio destinado a equipes de saúde mental e uma bibliografia comentada sobre comportamento suicida para o final deste ano.

A depressão é uma das principais causas de conduta suicida. Estima-se que metade dos casos de suicídio esteja associado a depressões. Entre outros motivos, encontram-se distúrbios psicossomáticos (como a esquizofrenia) ou doenças incuráveis, em que o doente não sente forças para suportar o sofrimento até o fim.

Da depressão ao suicídio
Antes de julgar um comportamento suicida, é preciso compreendê-lo, bem como a sua relação com a depressão. É freqüente haver pensamentos de suicídio nos casos de depressão grave. Por estar desesperada, a pessoa encara a vida como um fardo pesado demais para suportar. Sente-se tão cansada e pouco digna de viver que nem sequer pondera a possibilidade de encontrar uma solução para os seus problemas e, ainda menos, de colocá-la em prática. O suicídio – ou seja, a destruição da vida – surge-lhe então como a única saída possível. A sua impotência, real ou imaginária, pode conduzir a pessoa a angústias muito profundas, que a arrastam como uma corrente. É nesta altura que pode procurar a morte num ato impulsivo. Mas, pelo contrário, também pode premeditá-la lentamente, de forma minuciosa.
De qualquer forma, algumas tentativas de suicídio não têm por base uma vontade real de procurar a morte. O exemplo típico desta situação é a ameaça de suicídio mencionada durante uma discussão entre um casal. Nesse caso, o objetivo é provocar no outro um sentimento de culpa ou remorso, para obrigá-lo a mudar de atitude. Assim, o ‘candidato’ ao suicídio não deseja realmente a sua própria morte, mas principalmente assustar o outro e fazê-lo imaginar o seu desaparecimento, numa tentativa de sensibilizá-lo. Porém, é preciso reforçar que isso não significa que a pessoa não cumpra as ameaças, no caso de ver os seus esforços irem por água abaixo. O ideal é conversar com a pessoa, apoiando-a e encorajando-a a procurar ajuda profissional.
E atenção: é errado pensar que quem fala em suicídio nunca o cometerá. Sabe-se que a maioria das pessoas que tentaram o suicídio falaram sobre isso com os seus parentes e/ou amigos nos dias que precederam o ato. Algumas chegaram a consultar um médico, embora queixando-se apenas de problemas somáticos.

Prevenção do suicídio
A pessoa que manifesta idéias ou comportamentos suicidas tem sérias dificuldades em comunicar o seu desespero: não sabe nem como nem a quem transmitir os seus sentimentos. Exatamente por esse motivo, bem como por haver poucas ações preventivas neste âmbito, surgiu a idéia de criar unidades de prevenção do suicídio, cada vez mais freqüentes nos hospitais e outras instituições. O seu objetivo é atuar como centros de ajuda e de intervenção em momentos de crise, recorrendo ao telefone como meio de comunicação e permitindo que a pessoa permaneça no anonimato. O seu verdadeiro propósito é abrir uma porta, ao sugerir uma terapia mais profunda. Pode encontrar alguns contactos deste tipo na pág. 125.

No Brasil, contamos com o CVV - Centro de Valorização da Vida como instituição, é reconhecido como Entidade de Utilidade Pública Federal pelo Decreto Lei nº 73.348 de 20 de dezembro de 1973, e desenvolve também outras atividades filantrópicas como o
Hospital Francisca Julia, para doentes mentais sem recursos.
Quanto ao CVV, que é um programa de prevenção ao suicídio e valorização da vida, adotado por diversas instituições mantenedoras pelo Brasil, e concretizando-se como Posto CVV, se caracteriza por ser movimento filantrópico, civil sem fins lucrativos e desvinculado de religiões e política.
Conta com 2500 voluntários, 57 postos distribuídos pelo Brasil, que colocam-se gratuitamente a disposição de todos que sentem solidão, angústia, desespero e desejam desabafar.
Postos de AtendimentoAqui encontra-se uma lista com todos os postos CVV no Brasil.Nada é cobrado pelo serviço oferecido pelos voluntários que estão sempre disponíveis.Paga-se apenas a tarifa telefônica normal.
Amapá
Minas Gerais
Paraná
Bahia
Mato Grosso
Rio de Janeiro
Ceará
Mato Grosso do Sul
Rio Grande do Norte
Distrito Federal
Pará
Rio Grande do Sul
Espírito Santo
Paraíba
Santa Catarina
Goiás
Pernambuco
São Paulo

(21Telefone do CVV no Rio de Janeiro: (21) 2233-9191
em São Paulo: (11) 3151-4109

O deprimido e a sua família
Para a própria pessoa, é difícil reconhecer uma depressão, mas também o é para aqueles que a rodeiam e, por vezes, até para o médico. Contudo, é fundamental tomar medidas, porque não é só a pessoa deprimida que sofre, mas também os seus familiares. No meio familiar, a pessoa deprimida não é necessariamente a vítima, nem compete à sua família sentar-se no banco dos réus. Contudo, em circunstâncias difíceis, tanto as pessoas chegadas à família como a opinião pública tendem, com facilidade, a apontar o dedo a um ‘culpado’, sem tentar ir além de uma explicação simplista e superficial. A verdade é sempre um pouco mais complexa. Além disso, a atitude acusatória não é eficaz: não só impede a reflexão sobre as interações entre os membros da família, como também a procura de soluções construtivas. E acaba contribuindo para acentuar ainda mais o estado depressivo do doente no seio da família.

Atitudes freqüentes da família com o deprimido
O tratamento da pessoa deprimida será objeto de um capítulo específico. Ainda assim, ‘denunciamos’ desde já duas das atitudes ou formas mais comuns de reagir diante da situação.

A atitude voluntariosa
Algumas pessoas acreditam que basta um pouco de força de vontade para melhorar. Por isso, repetem dia após dia à pessoa deprimida frases como “anime-se, não fique para baixo” ou “reaja, faça alguma coisa”. Mas é justamente aí que se mora o perigo: a pessoa deprimida se sente realmente cansada, tende a desistir diante das dificuldades e perde mesmo a vontade de viver. Em outras palavras, a atitude voluntariosa exige do deprimido precisamente o que ele não consegue fazer.

A atitude superprotetora
Outra atitude que não promove a resolução do problema consiste em acreditar que o descanso pode remediar tudo. Na verdade, o deprimido já tem uma tendência exagerada para se fechar em si próprio e viver à margem do resto do mundo. Aconselhar repouso é uma atitude ‘protecionista’, que mantém a pessoa deprimida longe dos estímulos da vida, dos quais, diga-se de passagem, todos precisamos. Se esta atitude de proteção se tornar sistemática, corre-se o risco de fazer com que a pessoa deprimida se demita das suas responsabilidades e se torne dependente do seu conselheiro ou confidente protetor.

BOX 1
Quando alguém declara “vou me suicidar”, deve subentender-se “me escuta”. Mesmo que não seja certo que a pessoa passe ao ato, é fundamental permanecer atento e prudente. Esta ameaça não deve ser desvalorizada.

BOX 2
Alguns exemplos de pedidos de socorro
Os exemplos seguintes refletem o estado de espírito de algumas pessoas à beira do suicídio que procuram ajuda por contatos telefônicos, como os centros de valorização da vida - CVV

Um luto que se eterniza
Ligação de uma mulher angustiada, 24 anos, professora universitária. Diz que não agüenta mais. Está desesperada, pois recebeu uma advertência da diretora: comete erros, não consegue se concentrar, seus alunos perceberam isso e estão tirando proveito da situação. Os colegas não a entendem, está sozinha. Se continuar assim, em breve perderá as forças para ir trabalhar.
Tudo começou há quatro anos, quando a mãe morreu. Era a única pessoa com quem mantinha uma relação profunda e sincera. Depois da sua morte, dedicou-se ao trabalho e aos alunos. Tem consciência de que a sua vida profissional procurava compensar a afetiva. Sente-se prisioneira e só pensa no pior. Quer sair desta situação, mas não sabe por onde começar nem o que fazer.
A pessoa que a atende a faz ver que a advertência foi, de certo modo, a gota d’água e que, por trás disso, há outra coisa: uma depressão. Diz também que a depressão é algo que se pode curar. Fala ainda sobre uma terapia e, como a professora demonstra estar muito interessada, lhe dá várias indicações de profissionais. Semanas mais tarde, ela volta a ligar para contar que tinha começado um tratamento e que se sente muito melhor.

O peso de uma herança doentia
Ligação de uma mulher angustiada, que fala de forma trôpega. Sente-se desanimada. Afirma sofrer de um tipo especial de depressão, uma psicose maníaco-depressiva, devido à qual está em tratamento com um psiquiatra que lhe receitou lítio. Nesse momento, sente-se muito perturbada por circunstâncias familiares difíceis. Está atravessando uma crise terrível de angústia e pensa em se suicidar. Sabe que a sua reação é desproporcional em relação aos acontecimentos, mas é incapaz de se controlar. Sente pânico e precisa falar com alguém, porque acha que pode cometer uma loucura. O seu passado a envolve terrivelmente: dois irmãos já cometeram suicídio. Perdeu a mãe quando tinha seis anos. Tem a sensação de que a fatalidade, uma maldição, pesa sobre a sua família. Outra irmã também sofria de depressão e morreu num hospital psiquiátrico. Apesar dos seus esforços, teme não conseguir fugir de um destino parecido.
Após desabafar de uma só vez, a mulher parece sentir-se aliviada e consegue trocar alguns comentários com a pessoa que a atende. Confessa então se sentir melhor e recuperar uma perspectiva mais realista das coisas quando pode falar com alguém em plena crise de angústia. Sabe quando entra em ‘desvario’ e quando está dramatizando os acontecimentos. Tentou contatar o seu psiquiatra, mas ele não estava disponível. Não queria que o seu marido a visse naquele estado, para não descarregar a angústia sobre ele. A doença já prejudicou bastante a relação do casal. Agradece à pessoa que atendeu à chamada e despede-se mais calma.
BOX 3
Para conseguir que o estado da pessoa deprimida melhore, é preciso, antes de mais, fazer com que deseje mudar. Para tanto, convém ir ao seu encontro, tentando compreender as suas necessidades e ajudando a procurar soluções, a partir da sua situação concreta. Por vezes, isso significa simplesmente ouvir a pessoa.

Portadores de Epilepsia costumam apresentar sintomas de TDAH

Sabemos que portadores de Epilepsia podem apresentar sintomas do TDAH. Nesses casos, quando as crises convulsivas estiverem devidamente controladas, é indicado o tratamento do TDAH com o metilfenidato, com boa melhora dos sintomas. Veja um vídeo da ABE - Associação Brasileira de Epilepsia, falando características da Epilepsia e sobre o estigma causado pelo transtorno.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

TDAH, BIPOLAR, OPOSITIVO DESAFIADOR OU TRANSTORNO DE CONDUTA - NA CRIANÇA E NO ADULTO. COMO DIFERENCIAR?




TDAH, BIPOLAR, OPOSITIVO DESAFIADOR OU TRANSTORNO DE CONDUTA ...
COMO DIFERENCIAR ?
PODE SER MUITO DIFÍCIL EM ALGUNS CASOS...

* Carlos resolveu viajar e pediu a minha opinião(ele é portador de trastorno bipolar tipo I, com os sintomas em remissão por mais de um ano), queria saber se teria que continuar tomando "toda aquela remedada", se podia beber "só um pouquinho" e se tinha perigo dele "virar" na viagem...

* Ele já penou um bocado, já recebeu vários diagnósticos diferentes ao longo da vida, desde esquizofrênico à hiperativo, de mau caráter à marginal, de possuído a endemoniado e daí pra baixo.

... você lembra, né, que quando eu tava deprimido, "eles" (os pais) me olhavam como se eu fosse um chato, mal-humorado ou anti-social, mas quando eu tava "virado", "eles" me olhavam como se eu fosse um monstro, um possuído, um bandido, espertalhão e extremamente ativo pra fazer maldades. Eu nunca "dei uma a dentro" com "eles" mesmo (lágrimas corriam pelo seu rosto...). Mas eu tenho medo de enlouquecer de novo... Por enquanto tá tudo calmo aqui dentro de mim, mas de repente, sei lá, né, pode aparecer e eu tenho medo... o que você acha?

* Carlos fora diagnosticado por mim, quando eu era nada menos que a sua "enésima" psiquiatra. E na época, eu lhe dei o diagnóstico de transtorno bipolar tipo II (ele tinha história de ter tido virada maníaca com antidepressivo), muito embora ele estivesse muito agressivo, opositivo e impulsivo naquele dia... e muito embora ele já tivesse tentado o suicídio três vezes nos cinco anos anteriores... Hoje eu lhe daria o diagnóstico de Bipolar tipo I e transtorno de conduta e uso moderado de álcool...

* Eu notei os quatro cortes que ele tinha no corpo. Dois no pescoço e dois ou três nos pulsos. Sua história de vida tinha sido marcada por muita violência e maus tratos. Desde os seus dois anos de idade que ninguém aguentava com ele, nem as pessoas da creche e muito menos as professoras das escolas. Ele foi expulso da creche com dois anos. Trocava de escolinha todo ano. Fugiu de um semi-internato (colégio de padres) e ficou vagando na rua por uns cinco dias. E a família literalmente enlouquecida com ele. Eles diziam que ele tinha "puxado" a avó e um tio-avô, que moravam no interior de outro estado.

* Quando atendi a mãe, altamente deprimida, fiquei pensando em como teria sido difícil a convivência daquela família com o Carlos. O pai e o avô, dois generais bem radicais, tentaram de tudo para enquadrar o filho. Nada deu certo, só piorou a situação. O pai saiu de casa no aniversário de seis anos do filho, quando ele pegou a vela acesa do bolo e encostou no cabelo e no rosto da irmã... foi o caos. O pai conseguiu pegar a guarda da filha, para mais tristeza ainda, da mãe...

* Carlos não concluiu o ensino fundamental. Era "do mau", usava canivetes, alfinetes, soco inglês e não tinha culpa quando aterrorizava os professores. Apertava o pescoço do seu cachorro e achava graça, só soltava quando o pobre animal começava a desfalecer... Ele ria das maldades que fazia na escola, sempre me disse que tinha muito ódio dos professores e do diretor...

* Fazia questão de dizer que só estava indo na consulta por "pena" da mãe, mas que de uma hora pra outra ele ia sumir dali... (nunca entendi se ele queria dizer que sumir era ira largar o tratamento ou morrer...)e olhava pra minha cara e ria, ria, ... mas eu sempre ficava olhando nos seus olhos e sempre ficava muito séria...

* Ele me ameaçava, vivia dizendo que um dia ia acabar com a "belezinha" do meu consultório. Eu custei a tomar uma atitude diante de suas ameaças, mas um dia eu decidi. Eu disse a ele que procurasse outro médico pois eu não estava me sentindo em condições de ajudá-lo, ao contrário, estava servindo de "palco" para as suas atitudes cruel para comigo. E me levantei e abri a porta e pedi a ele que se retirasse.

* Ele engoliu seco, mas saiu de nariz empinado. Eu tranquei a porta e senti um enorme alívio! Só ali, eu percebi que eu tinha muito medo dele.

* Uma semana depois, ele me ligou dizendo que precisava falar comigo. Ele disse que se eu não falasse com ele, ele se mataria ali mesmo, onde ele estava, ou seja, em sua casa.

* Eu disse a ele que naqueles termos não haveria conversa. Pedi que ele pensasse e me ligasse um outro dia. E que ele era o único responsável pela vida dele.

* Dois meses e meio depois, sua mãe me ligou, pedindo que fosse até sua casa porque Carlos estava se mordendo, se ferindo todo e que não saía do quarto há dias e que nem se alimentava mais.

* Eu Fui. Obrigada pelos meus valores éticos e de solidariedade. Mas fui. A cena era patética. A casa lúgubre, uma penumbra, um cheiro fétido. Pedi a mãe que abrisse todas as janelas da casa.

* O quarto, um horror. Sangue e pele arrancada pra todo lado. Canecas ao chão, roupas, revistas e todo tipo de coisas havia ali. Carlos devia ter perdido uns oito a dez quilos. Deitado estava, ali ficou sem olhar pra mim. Não falou uma palavra sequer. Imediatamente, eu sugeri internação em virtude dele estar gravemente deprimido e a mãe aceitou. A ambulância foi pegá-lo em casa. O plantonista da clínica o acompanhou durante a internação, que levou quase seis meses. Eu não o vi mais, naquele período todo. Achei melhor não visitá-lo.

* Eu soube, pela mãe, que na internação ele havia "virado" e tentado se matar (dentro da clínica) com fios de cadarço que ele pegava nos quartos e com um cinto que ele roubou de um médico. Segundo a mãe, ele arrumou "droga" (cocaína) com um outro paciente e ainda piorou mais as coisas pra ele.

* Dois anos se passaram e do nada - ele marcou uma consulta comigo. Pra resumir, ele estava procurando tratamento "de verdade" e queria tomar remédio. E demonstrava sentimento e vontade de sair do fundo do poço... Pela primeira vez eu senti que ele estava sendo sincero em relação ao tratamento...

* E de fato, ele seguiu o tratamento certinho, como segue até hoje. E agora, ele quer viajar e quer saber a minha opinião...

* Acho importante relatar casos graves como o de Carlos e ressaltar o grau do sofrimento da família, e do meu também...

* Enfatizar a importância do diagnóstico precoce.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

FOBIA SOCIAL E TRANSTORNO EVITATIVO DE PERSONALIDADE


COMO ELES COSTUMAM PENSAR?

“ A maioria das pessoas por vezes utilizam a evitação para aliviar a ansiedade ou prevenir o encontro com situações difíceis.”
“ Nos pacientes com TEP, a evitação social é evidente, sendo menos óbvia a evitação emocional e cognitiva, quando então eles evitam pensar sobre coisas que os façam sentir-se desconfortáveis . ”
“ Eles sentem uma intolerável tensão ao relacionarem-se com outras pessoas e a solidão torna-se um meio primário para evitá-la (Horney, 1945) . ”
“ Sem motivo, eles sentem que os outros o ignoram, o menosprezam, não o levam à sério, não fazendo questão da sua companhia. Seu autodesprezo o torna profundamente inseguro nas relações com as pessoas .”
Histórico
O termo “ personalidade evitativa ” foi usado pela primeira vez por Millon em 1969, que o descreveu como consistindo de um padrão de “desapego ativo”, representando “um temor e desconfiança dos outros”.
Definição
O TEP caracteriza-se por uma evitação comportamental, emocional e cognitiva generalizada e que é alimentada por pensamentos de autodepreciação, expectativas de rejeição interpessoal e uma forte crença de que emoções e pensamentos desagradáveis são intoleráveis. Tais pacientes apresentam várias crenças e/ou esquemas disfuncionais de longa duração e que interferem em seu funcionamento social de modo global.
Diagnóstico Diferencial
Transtorno Esquizóide de Personalidade, Fobia Social e Agorafobia. No primeiro, os pacientes se satisfazem com pouco ou nenhum envolvimento social e são indiferentes às críticas dos outros. Na Fobia, apesar de também temerem a humilhação e terem baixa confiança em suas habilidades sociais, eles não evitam relacionamentos íntimos, apenas determinadas circunstâncias sociais como falar ou comer em público, por exemplo. A evitação agorafóbica está ligada ao temor de estar em lugares abertos, longe de casa ou onde não recebam ajuda, caso algo ruim ocorra. Os pacientes com TEP frequentemente procuram tratamento médico por transtornos do Eixo I (transtornos psiquiátricos), como Transtorno de Ansiedade Generalizada, Fobia, Depressão, abuso de substâncias psicoativas, Transtornos do Sono etc. Transtornos Somatoformes e Dissociativos podem acompanhar o Transtorno Evitativo de Personalidade.
CARACTERÍSTICAS
§ As pessoas com TEP expressam desejo de afeição, aceitação e amizade, muito embora tenham poucos amigos e compartilhem de pouca intimidade com qualquer pessoa. Inclusive com o terapeuta, eles têm dificuldade para falar de tais assuntos. Apesar do desejo de relacionarem-se com pessoas, eles aprenderam ser melhor negar tais sentimentos e manterem um distanciamento interpessoal.
§ Muitas vezes, a solidão e tristeza são mantidas pelo medo da rejeição, que inibe o início ou a manutenção de amizades.
§ Tais pacientes se fecham e logo mudam de assunto caso o terapeuta insista em falar sobre assuntos que provoquem sentimentos desconfortáveis, geralmente oriundos de suas crenças falsas.
§ Alguns pacientes não toleram ficar disfóricos, ou seja, de mau humor ou aborrecidos ou irritados, usando das mais variadas atividades (por vezes até adições) para melhorarem o humor.
§ Mantém uma vigilância constante para que seus anseios por atenção não redundem em repetição da dor e angústia que experimentaram de encontros anteriores, só conseguindo protegerem-se pelo retraimento ativo.
§ Estes pacientes têm uma necessidade extraordinária de estruturação e controle externos dos objetos, a ponto deles(objetos) tornarem-se perigosos. A saída é a evitação destes objetos.
§ Tentativas de engajar estes pacientes em uma interação são encaradas como intrusão e trazem consigo uma ameaça de desorganização.
§
ALGUMAS CRENÇAS FALSAS
§ “ Eu sou socialmente incapaz e indesejável”
§ “ As outras pessoas são superiores a mim e me rejeitarão ou pensarão em mim de modo crítico, caso me conhecerem melhor “
§ “ Eu não consigo lidar com emoções fortes”
§ “ Ele vai achar que eu sou um fraco”
§ “ Se eu ceder a estes sentimentos negativos, eles prosseguirão para sempre; se eu os ignorar, talvez as coisas melhorem um dia”
A EVITAÇÃO SOCIAL
OS ESQUEMAS DISFUNCIONAIS
Eles têm várias crenças ou esquemas disfuncionais que interferem no seu funcionamento social. Fazem suposições falsas para explicar pensamentos negativos. Quando crianças, podem ter tido uma pessoa significativa que era altamente crítica e rejeitadora para com eles, fazendo com que desenvolvessem certos esquemas patológicos, como:
- “ Eu sou inadequado”
- “ Eu sou defeituoso”
- “ EU sou indesejável”
- “ Eu sou diferente”
- “ Eu não me enquadro”
- “ As pessoas não se importam comigo”
- “ As pessoas me rejeitarão”
- “ Eu devo ser uma pessoa má para minha mãe/pai me tratar assim”
- “ Eu devo ser diferente, por isso que não tenho amigos”
- “Se meus pais não gostam de mim, quem gostará ?”
- “Me acham burro, bonzinho, tolinho...”
MEDO DA REJEIÇÃO
Posteriormente, quando adultos, tais pacientes cometem o erro de supor que os outros reagirão com eles da mesma forma negativa que a pessoa significativa e crítica da infância. Continuamente, eles temem que os outros descubram que eles são deficientes e o rejeitem. Temem sentir-se disfóricos (irritados, agressivos) e acreditam não serem capazes de suportar tal sentimento. Por vezes, limitam severamente suas vidas para evitar a dor que esperam sentir quando alguém – a seu juízo – inevitavelmente os rejeitar.
Eles interpretam a rejeição de uma forma muito pessoal e tanto mais dolorosa quanto mais eles virem as reações negativas como sendo justificadas. Por exemplo:
- “ Ele me rejeitou porque sou inadequado”
- “ Se ele pensa que não sou inteligente, então deve ser verdade”
AUTOCRÍTICA
Estes pacientes geralmente apresentam uma série de pensamentos autocríticos automáticos, tanto em situações sociais quanto à encontros futuros, que originam mal-estar e que nunca são questionados pelos pacientes por que eles julgam-se certos. Tais cognições negativas são típicas e originam-se de esquemas negativos, como:
- “ Eu sou um chato”
- “ Eu sou tolo”
- “ Eu sou um fracasso”
- “ Eu sou ridículo”
- “ Eu não me enquadro”
- “ Sou burro”
Antes ou durante um encontro social, estes pacientes evitativos apresentam um fluxo de pensamentos automáticos negativos que prevê o que irá ocorrer :
- “ Eu não tenho nada a dizer”
- “ Eu vou fazer papel de idiota”
- “ Ele não vai gostar de mim”
- “ Ele vai me criticar”
- “ Não vou ter de nada interessante pra falar”
- “ não vou conseguir ser simpático”
SUPOSIÇÕES SUBJACENTES SOBRE OS RELACIONAMENTOS
Os esquemas dos pacientes evitativos também dão origem a suposições disfuncionais sobre os relacionamentos. Eles poderão acreditar que escondendo o que realmente acreditam ser, poderão enganar os outros daquilo que realmente acham que são:
- “ Eu preciso apresentar uma fachada para que eles gostem de mim”
- “ Se os outros me conhecessem realmente, não gostariam de mim”
- “ É perigoso chegarem muito perto e verem quem eu realmente sou”
- “ sou uma mentira, um fake”
Quando fazem amizade, eles fazem suposições acerca daquilo que devem fazer para preservar a amizade. Poderão mudar de opinião para evitar o confronto, buscando sempre satisfazer o desejo do outro:
- “ Eu preciso agradá-lo todo o tempo”
- “ Ele só gostará de mim se eu fizer tudo o que ele quiser”
- “ Eu não posso dizer não”
- “ Se eu o desagradar, ele mudará toda a visão que tem de mim e vai me rejeitar”
AVALIAÇÃO ERRÔNEA DAS REAÇÕES ALHEIAS
Os pacientes TEP têm dificuldade em avaliar as reações alheias. Podem interpretar erroneamente uma reação neutra ou positiva como sendo uma reação negativa. Podem buscar reações positivas de pessoas cujas opiniões são irrelevantes em suas vidas, como balconistas ou motoristas de ônibus. É vital que ninguém pense mal deles, devido à crença de que “se alguém me julgar negativamente, a crítica deve ser verdadeira” . É perigoso estarem em posição de serem avaliados porque as reações negativas ou até neutras de outras pessoas confirmam a crença de que são indesejáveis ou defeituosos. Eles não dispõem de critérios internos para julgarem-se a si mesmos, baseando-se unicamente em sua percepção do juízo dos outros.
DESCONSIDERAÇÃO DE DADOS POSITIVOS
Mesmo diante de evidências indiscutíveis aos olhos dos outros de que são aceitos e estimados, os pacientes evitativos as desconsideram. Acreditam que enganaram a pessoa, que o julgamento dela é falho ou que ela não dispõe de informações adequadas para vê-los claramente:
- “ Ele pensa que eu sou inteligente, mas eu o enganei”
- “ Ele vai acabar descobrindo que eu de fato não sou muito legal”
EVITAÇÃO COGNITIVA, COMPORTAMENTAL E EMOCIONAL
Eles evitam pensar sobre certos assuntos que geram mal-estar e agem segundo maneiras que lhes permitam continuar com esta evitação, emergindo, assim, um padrão típico. Mesmo quando tomam consciência dos sentimentos disfóricos, podem ter ou não noção dos sentimentos que acompanham a emoção. Como a sua tolerância à disforia é muito baixa, eles fazem algo para distraírem-se e sentirem-se melhor.
Assim, eles poderão interromper ou deixar de iniciar uma tarefa que planejaram realizar. Poderão pegar algo para ler, ligar a TV, ficar no computador, comer ou acender um cigarro, andar pela casa, etc. Ou seja, eles procuram uma distração para tirar os pensamentos desagradáveis da cabeça. Tal padrão de evitação cognitiva e comportamental, sendo reforçado por uma diminuição do mal-estar, por fim torna-se arraigado e automático.
Pode acontecer que o paciente tenha alguma consciência de sua evitação social. Invariavelmente, eles se criticam em temos globais e estáveis:
- “ Eu sou preguiçoso”
- “ Eu sou renitente”
Tais pronunciamentos reforçam as crenças sobre si mesmos quanto a serem inadequados ou defeituosos e os levam à desesperança. Eles não vêem que a evitação é a sua forma de enfrentar emoções incômodas. Em geral, eles não têm consciência de sua evitação cognitiva e comportamental, até que tal padrão lhes seja esclarecido.
ATITUDES QUANTO A EXPERIMENTAR DISFORIA
Os pacientes evitativos podem apresentar atitudes disfuncionais quanto a experimentar emoções disfóricas ou seja, que gerem desconforto interno:
- “ É insuportável sentir-se mal”
- “ Eu não deveria ter ficado ansioso”
- “ Eu deveria sentir-me sempre bem”
- “ As outras pessoas raramente sentem medo, embaraço ou mal-estar”
Estes pacientes acreditam que se permitissem a si mesmos sentirem-se disfóricos, seriam engolfados pelo sentimento incômodo e jamais seriam capazes de se recuperar. Temem a emoção avassaladora que esperam sentir no caso de perderem o controle e temem ser subjugados pela disforia e permanecerem sempre nela :
- “ Se eu deixar meus pensamentos extravasarem, serei esmagado”
- “ Se eu ficar ansioso, vou ao fundo do poço”
- “ Se eu me abater, perderei o controle e não serei mais capaz de funcionar”
DESCULPAS E RACIONALIZAÇÕES
Os pacientes evitativos têm um forte desejo de atingir seu objetivo a longo prazo, de estabelecer relacionamentos mais íntimos. Sentem-se vazios e solitários e desejam modificar suas vidas, ter amizades mais íntimas, emprego melhor, etc.
Eles geralmente tomam consciência daquilo que precisam fazer para realizar seus desejos mas o custo a curto prazo de experimentar emoções negativas parece-lhes excessivamente elevado. Eles elaboram milhões de desculpas para não fazerem o necessário para atingir seus objetivos:
- “ Eu não vou gostar de fazer aquilo”
- “ Eu vou me sentir pior se fizer aquilo”
- “ Eu vou fazer isso mais tarde”
- “ Não estou com vontade de fazer isso agora”
Quando vem o “mais tarde” ou o “ depois”, eles invariavelmente usam as mesmas desculpas, continuando com a evitação comportamental. Além disso, eles podem não acreditar que são realmente capazes de atingir seus objetivos. Eles fazem suposições:
- “ Não há nada que eu possa fazer para mudar a minha situação”
- “ Por que tentar?”
- “ Eu não vou conseguir, de qualquer jeito”
- “ É melhor perder por desistência do que tentar e inevitavelmente perder”
PENSAMENTO DESEJOSO
Os pacientes evitativos podem envolver-se em um pensamento desejoso relativo ao seu futuro. Podem acreditar que, algum dia, o relacionamento ou o emprego perfeito surgirá do nada, sem esforço de sua parte. Frequentemente, eles não acreditam que serão capazes de atingir seus objetivos mediante seus próprios esforços:
- “ Um dia eu vou acordar e tudo estará bem”
- “ Eu não consigo melhorar de vida sozinho”
- “ As coisas podem melhorar mas não vai ser por algo que eu faça”

SUMÁRIO
Os pacientes evitativos mantém profundas crenças negativas a respeito de si mesmos, provavelmente originárias da infância, quando as interações com uma pessoa significativa, rejeitadora e crítica os levou a ver a si mesmos como inadequados e inúteis. Socialmente, eles evitam situações onde as outras pessoas poderiam aproximar-se e descobrir seu “verdadeiro eu”. Comportamentalmente, evitam tarefas que engendrariam pensamentos que os fizessem sentir desconforto. Cognitivamente, evitam pensar sobre assuntos que produzam disforia. Sua tolerância ao desconforto é muito baixa e eles valem-se de “doses” de distração sempre que começam a sentir-se ansiosos, tristes ou entediados. Eles são infelizes com seu atual estado mas sentem-se incapazes de mudar mediante seus próprios esforços.

O MEDO - é bom saber lidar com ele, senão pode levar à ansiedade ou depressão


O medo é um sentimento de estado de alerta demonstrado pelo receio de se fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto fisica quanto psicologicamente. O medo é o estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência. Medo é uma informação de que há risco, ameaça ou perigo direto para o próprio ser ou para interesses correlatos.Mas em princípio, lutar pode ser uma reação positiva. Isso não quer dizer que fugir seja uma reação negativa. Tudo depende da situação. A cada situação nova e inesperada, que represente um perigo, surge o medo. E diante de uma situação de perigo, só nos restam duas alternativas: lutar ou fugir. É preciso reconhecer os próprios limites, por exemplo, sabemos que não reagir a um assalto é o melhor, pois reagir pode provocar conseqüências piores do que nada fazer.O medo, até certo ponto, portanto, nos é útil, pois é justamente devido a ele que nós nos cuidamos, evitamos lugares perigosos, enfim, prolongamos a nossa existência. Assim, sabemos que o medo é uma reação protetora e saudável do ser humano. O medo "normal" vem de estímulos reais de ameaça à vida. O medo deve estar dentro do nosso controle, para que ele não nos paralise nem nos deixe apavorados, o que poderia fazer com que muitos de nós nos colocássemos em situações de maior risco ainda.Com medo, devemos respirar fundo, devagar, sem perdermos a capacidade de raciocinar. Jamais podemos nos desesperar. Não podemos deixar de pensar racionalmente. Precisamos acreditar na nossa capacidade de julgamento e crítica, para que – mesmo com medo – enfrentemos o nosso dia a dia, sem deixar que o medo torne-se patológico, passando assim a prejudicar a nossa cognição e a nossa qualidade de vida enquanto prejudica enormemente a nossa auto-confiança e auto-estima.Depreendemos, então, que em princípio, lutar pode ser uma reação positiva. Isso não quer dizer que fugir seja uma reação negativa. Tudo depende da situação. Quando há uma situação de ameaça real a sua vida, o medo não é uma reação patológica, mas sim de proteção e autopreservação. Situações reais de perigo exigem discernimento, mas o medo irracional, sem causa real, deve ser enfrentado.É preciso lembrar que nosso inconsciente não diferencia fantasia de realidade. Se ficar pensando em todas as vezes que não conseguiu, ou ainda, que não vai dar certo mesmo, que nem adianta começar, baseando-se nas experiências anteriores negativas, sua mente irá reagir de acordo com esse pensamento, pois o medo nasce da associação que nossa mente estabelece com experiências ameaçadoras que ocorreram, sem discernir que não irão ocorrer mais. Sua mente não sabe distinguir o que é passado e presente. Realidade e fantasia. E se esse seu pensamento continua presente, sua mente irá acreditar nisso como real.Como surge o medo?Além dos perigos iminentes e reais, nossos temores podem ter aparecido de associações que fazemos ao longo da vida. Por exemplo, uma criança que teve sua casa destruída durante uma tempestade pode sentir-se ameaçada por uma tragédia toda vez que chover intensamente. Querendo ou não, sua mente fará essa relação. Ou ainda, pessoas que passaram por muitas privações quando crianças. Que não tinham o que comer, ou que tinham que "brigar" pela comida com irmãos, podem desenvolver uma tendência a comer exageradamente, como se sentissem, ainda que inconscientemente, medo de passarem fome novamente. Ou para buscarem compensar aquilo que não tiveram.Isso pode ocorrer. Nossa mente inconsciente é atemporal: não tem passado, futuro. É como se tudo estivesse sendo vivenciado no momento presente. Não há discernimento do que aconteceu, já foi e o que está ocorrendo, misturando assim passado e presente. O medo de que não vai conseguir é muito comum e acaba interferindo diretamente na auto-estima e amor-próprio, além da autoconfiança. Uma pessoa que não age por medo de não conseguir, não acredita em sua capacidade e, assim, está perdendo também a oportunidade de conseguir e de reverter todo esse quadro.Pode ainda haver o medo de aumentar mais o peso e assim ter problemas de saúde, sobrecarregar os órgãos, medo por motivos concretos e que podem estimular muitos a mudarem seus hábitos em busca de uma melhor qualidade de vida. Se você consegue ao menos pensar que pode enfrentar a situação, já é um progresso. Mas, e quando nada conseguimos fazer a não ser sentir medo? O diferencial mesmo é o que cada um busca e quer para si e sua vida.Quando alguém diz que não consegue, que vai desistir porque sabe que não irá conseguir, geralmente são pessoas que estão com a auto-estima muito baixa e amando-se muito pouco. Ou não se sentem capazes de cuidar de si mesmas. Querem fórmulas mágicas, resultados imediatos. Querem o impossível, assim fica mais fácil justificarem para si mesmas que irão desistir por medo.Procure descobrir o que o medo simboliza para você. O que ele representa. Acontece com o medo o mesmo que com outros sentimentos: quanto mais o negamos, mais poderoso ele se torna. Explore seu medo, descubra o que está por trás dele. Se tiver dificuldade em fazer isso, busque ajuda profissional. A pessoa mais prejudicada nesse processo todo é você mesma. Por isso, arregace as mangas e trabalhe contra tudo isso, sem pensar em desistir. Afinal, ou o medo te controla ou você controla ele.
Qual você prefere?


Veja só que citações interessante que existem no mundo sobre o medo:


"Tenho mais medo da mediocridade que da morte".Bob Fosse


"Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz. Coragem é

resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo".Mark Twain


"Só erra quem produz. Mas, só produz quem não tem medo de errar. As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo. Do medo da mudança". Octavio Paz


"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz".Platão


" Não é que eu tenha medo da morte. Eu apenas não quero estar lá quando isso acontecer".Woody Allen


"O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. O medo é a maior das doenças, porque paralisa o corpo e a mente. Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite".Clarice Lispector


"A vida é maravilhosa se não se tem medo dela".Charles Chaplin"


...mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo".Luis Fernando Verissimo


"O medo me fascina".Senna, piloto Fórmula 1, em 1991


"O medo faz parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras - acho que estou entre elas - aprendem a conviver com ele e o encaram não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de autopreservação".Senna, em junho 1991


"(Quando foi perguntado se tinha medo da morte) Da morte, nunca tive medo. O que não quero é ficar aleijado. Disso sim, tenho um medo que me pelo".Nelson Piquet, piloto de Fórma 1


"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar".Shakespeare"


À medida que nos libertamos de nossos medos, nossa presença automaticamente liberta outros".Harriet Rubin, em A Princesa - Maquiavel para Mulheres


"Você ganha forças, coragem e confiança, a cada experiência em que você enfrenta o medo. Você tem que fazer exatamente aquilo que acha que não consegue.Eleanor Roosevelt


"Não tenho medo das tempestades porque sei como guiar meu navio".Luisa May Alcott


"Quando patinamos no gelo fino nossa segurança está na velocidade".Ralph Waldo Emerson


"No fundo sabemos que o outro lado de todo o medo é a liberdade".Marilyn Ferguson


"Guarde seus medos para você mesmo, mas partilhe sua inspiração com todos".Robert Louis Stevenson


"Não tenho medo do amanhã porque já vi o passado e amo o dia de hoje".William Allen White


"De todas as paixões, o medo é aquela que mais debilita o bom senso".Jean Retz

TDAH NOS DIAS DE HOJE


Hoje em dia, mais do que nunca, temos que prestar muita atenção nas mulheres afobadas, destrambelhadas, ansiosas ou depressivas. Elas podem nos parecer desatentas ou à mil por hora. E muitas vezes, só na hora de colhermos uma história detalhada dela, é que vamos definir o que é a agitação da contemporaneidade da inquietude do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade...
São tantos os fatores “estressores” nos dias de hoje, que eu poderia ficar aqui descrevendo-os pela madrugada afora...
Estamos vivendo atualmente a Moderna Era do Estresse, onde observamos que cada vez mais, estamos abarrotados de obrigações, responsabilidades e agendas lotadas. A competição no mercado de trabalho está cada vez mais acirrada, com necessidade de termos mais de uma especialização na nossa profissão, com os ‘pós’..., os MBAs, mestrados, doutorados, pós-doutorados, etc., numa corrida obsessiva contra o tempo e pela garantia de permanecer no emprego e ou de arrumar um.
Hoje, o profissional precisa se superar a cada dia, batendo seu próprio recorde, uma vez que temos um aumento substancial de empregos “sem carteira assinada”, ou chamados “PJs”, como dizemos, que, tal como os autônomos e os free-lancers, muitos deles só conseguirão algum trabalho no ramo da terceirização de serviços, e, é claro, onde a seleção natural é evidente, bem objetiva e pragmática: só os melhores e os “mais feras” conseguirão a melhor vaga e o melhor salário no mercado de trabalho atual.
As mulheres, hoje tão liberais, modernas e ‘super-poderosas’ (embora muitas delas estejam ficando hiper-esgotadas), estão tendo que se desdobrar em “DEZ”, caso queiram manter o status e queiram ter a sua própria casa, carro, marido (muitas preferem produção independente), filho(s), empregada (ou faxineira), cachorrinho, dinheiro para viajar ou para cuidar do corpo ou da pele, etc., (a lista aqui pode ser quase interminável...) pois nestes casos as ‘super-poderosas’ precisam começar o dia bem cedo, tipo 5 ou 6 da manhã, para irem à academia (é “chic” e faz bem à saúde), é claro, para depois deixarem o filhote na escola e saírem correndo para o trabalho.

No almoço, os ‘fast-food’ mesmo para umas ou o básico ‘salada verde com franguinho grelhado’ para as “mulheres-diets” ou “muheres-zero” (dos recém- lançados refrigerantes zero calorias), como dizemos hoje, sim, tudo às pressas, para poderem chegar ao trabalho na hora certa, sem terem que compensar... algumas mulheres ainda farão suas ‘pós’ depois do trabalho, outras irão para casa terminar os serviços não acabados e verem se os filhos fizeram os deveres, etc.
Também não é nenhuma novidade que as relações afetivas homem-mulher estejam cada dia mais ‘apoucadas’, mais frouxas, sei lá, todo mundo (eles e elas) vive reclamando, estão quase sempre descontentes, decepcionados, com sentimento de vazio, de solidão, solidão a um, a dois, a três, sentimentos de impotência, medo do futuro, etc....
No que tange aos homens, a vida também não está nada fácil. Ou eles têm a obrigação de manter casa, filho(s), mulher, o que já não é pouco, como muitos deles (e delas também) ainda têm que arcar com o ônus do(s) filho(s) do(s) casamento(s) anterior/es... como dizem eles/elas: - “... assim fica difícil, haja salário que cubra os nossos gastos!”
Observamos também que, talvez até por falta de tempo ou pelos tantos problemas compartilhados em casa pelos casais, o que obviamente desgasta qualquer relação conjugal, que homens e mulheres têm se queixado cada vez mais de falta de interesse e de libido por parte da(o) parceira(o), de sentimentos de estarem sobrecarregados(as), sentindo falta de carinho, atenção, reconhecimento, gerando um distanciamento do casal. Fato é que, seja em nome dessa “frustração”, digamos assim, ou por qualquer outro motivo, muitos querem se distrair fora de casa, não raro saindo depois do trabalho para bate-papos com amigos em barezinhos, tudo regado a petiscos e muito chopp, enquanto outros confessam que precisam de relacionamentos extra-conjugais, entre outros, para se confortarem um pouco. Fator também de suma importância para a gênese do estresse é o empobrecimento visível da nossa classe média, que trabalha cada ano mais e vê seu padrão de vida descendo cada vez mais, por mais que eles trabalhem mais e mais, a cada ano... “-... é um buraco sem fundo...”
Por fim, porém não menos importante, o fato de estarmos vivendo hoje num país violento, sem lei - tal qual filhos órfãos sem pai nem mãe, num mundo sem chão, sem limites, sem regras, sem coerência, sem justiça - tem gerado na sociedade como um todo um sentimento desconfortável de desamparo, descrença e angústia diante do futuro.
E, só para terminar, possivelmente como conseqüência de tudo o que foi dito acima, muitos de nós (sobre)vivemos sob um grau importante de estresse, o que ainda nos obriga a reservar uma fração mensal do nosso salário para os nossos “lexs”(lexotans) da vida, ah sim, porque, convivendo diariamente com tamanho estresse, haja organismo que agüente firme sem titubear ...
Solução?
Sim, tem. Sempre terá. Não há problemas sem solução! Precisamos afinar a nossa confiança e estima e acreditarmos no nosso potencial criativo diante do novo e das dificuldades e assim, prontamente desengavetarmos o nosso bom humor e as nossas ferramentas internas para boas mudanças, enfrentando as adversidades do dia-a-dia, não procrastinando, ou seja, não deixando para amanhã o que se pode fazer hoje, não tentando ultrapassar os próprios limites, não nos comparar com as outras pessoas, enfim, não podemos perder a capacidade de “ver globalmente” – pois não há nada no mundo que não seja passageiro – nem nada no mundo que não tenha o seu lado bom. É só procurar. E quem procura, acha.
Evelyn Vinocur, 07 de fevereiro de 2009.
Psiquiatra e Psicoterapeuta Cognitivo-Comportamental.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Vai ser na quinta-feira dia, 12 de fevereiro de 2009, às 18 horas,
na Avenida 28 de Setembro, 389 - sétimo andar no Auditório,
em Vila Isabel
para familiares e portadores de TDAH,
em Vila Isabel, Rio de Janeiro.
tels 2576-5198 ou 9989-5798.
Experiências e vivências são trocadas.
Coordenação da Dra Evelyn Vinocur

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


TDAH / TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR
O TRATAMENTO CONJUNTO PODE SER A MELHOR OPÇÃO
Apesar de serem condições cientificamente validadas no mundo inteiro, o TDAH ou transtorno de deficit de atenção e hiperatividade ainda é muito pouco conhecido e consequentemente, pouco diagnosticado e adequadamente tratado. Adultos com TDAH em sua forma pura tem os sintomas de desatenção e impulsividade melhorados com o metilfenidato (Ritalina, Ritalina LA e o Concerta). O problema é que em cerca de 70% dos casos, o TDAH apresenta comorbidades, ou seja, outros transtornos psiquiátricos que aparecem junto com o TDAH e agravam o problema e dificultam o tratamento. De igual modo, as famílias precisam ser tratadas também, pois elas geralmente não entendem e não aceitam o transtorno como uma doença a ser tratada e muitos familiares insistem em achar que é molecagem, que já virou vício, que é pirraça, falta de vontade, preguiça ou porque o portador só quer mesmo é uma mansa e "viver na sombra e água fresca"...
O número de desavenças conjugais auemnta muito, muitos pais saem de casa, passam a morar em outro bairro ou cidade próxima ou alguns somem de vez... por não aguentarem uma carga tão grande de conflitos e culpas. A família muito frequentemente se desestrutura, os conjuges culpam o outro conjuge, que revida em contra-partida... Quando as crianças vao ficando adolescentes e adultos jovens, o estrago na vida daquela familia pode ser total. A comparação é inevitável, e a autoestima daquele jovem fica realmente destroçada. Muitos pais acabam por optar que o filho more sozinho, tamanho o sofrimento que reina na família. No caso do transtorno bipolar, doença grave, séria e que pode cursar com fases depressivas e de euforia, o caso é mais sério ainda. E o TDAH e o Transtorno Bipolar podem cursar ao mesmo tempo, inclusive como comorbidade. Sob alguns pontos, os dois problemas se parecem muito. O tratamento com psicofármacos e psicoterapia pode ajudar em ambos os transtornos vem como como a terapia com os familiares se torna imprescindível. É como se o psiquiatra, o paciente e a família estivessem todos em um barco e todos tivessem que remar. Se a força de cada um não ficar em sintonia com a dos demais, o barco nao vai navegar satisfatoriamente, pode até ficar andando em círculos.
O grupo precisa ser homogeneo e o perfil de cada participante deve ser parecido com os dos outros, para que o trabalho renda melhor.

XX CONGRESSO DA ABENEPI SOBRE INFANCIA E ADOLESCENCIA

Em Junho deste ano a ABENEPI realizará seu XX Congresso Nacional. Por isso deixamos disponível abaixo os links do website da ABENEPI e também do website especial preparado para o Congresso. Caso não escolha nenhum dos links, em alguns segundos você será redicecionado automaticamente para o website do Congresso.
Agradecemos sua visita.
Participe de nossos eventos.

História da Associação, notícias, novos associados, cadastros de profiissionais,links, boletim informativo, endereço das sedes e contatos.
Tudo sobre os preparativos para o XX Congresso Nacional da ABENEPI. Ficha de Inscrição. Envio de trabalhos e informações sobre os temários e sobre os palestrantres.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

DEPRESSÃO NO PRE-ESCOLAR E NO ESCOLAR E ADOLESCENTE


Depressão
Os transtornos afetivos ou transtornos do humor se constituem cada vez mais em fonte de significativa de preocupação para a sociedade como um todo. Descrições médicas de transtornos de humor na literatura são encontradas na literatura desde 5000 anos atrás e vêm sendo mais bem compreendidos ao longo do tempo, graças à maior experiência clínica, estudos de genética, neuroimagem e neuropsicologia, entre outros, fazendo com que a depressão se firmasse como entidade clínica e diagnóstico médico incontestável. Entretanto, muito há que ser compreendido sobre a etiopatogenia da depressão, uma vez que ela é uma doença essencialmente humana, não havendo ainda, meios plenos dela ser compreendida fora do contexto humano (Bueno R, 2006).
É sabido que diagnosticar depressão nem sempre é uma tarefa fácil. Muito menos quando se trata de diagnosticar depressão em crianças e adolescentes. Vive-se hoje uma era globalizada, com uma pletora de meios de informação, onde o indivíduo tem muito mais acesso as informações sobre as distintas patologias médicas, se informando mais e melhor sobre os seus sintomas. Com isso, não raro, muitos pacientes ou mesmo os pais já chegam autodiagnosticados ou com o diagnóstico “pronto” do filho aos consultórios, sejam universitários ou privados. Muitos, inclusive, chegam munidos de questionários de auto-avaliação já preenchidos, que imprimem na internet ou através de revistas.
A depressão é vista como uma doença crônica na qual o indivíduo pode apresentar diversos sintomas depressivos e em diferentes graus de intensidade. Muitas vezes se inicia na infância ou adolescência, com curso prolongado, podendo eventualmente persistir por toda a vida. É sabido que a maioria dos pacientes deprimidos relata o início dos sintomas depressivos desde a infância. Por se tratar de uma patologia grave e reconhecidamente cíclica, sabe-se hoje que a depressão de início precoce necessita de cuidados o quanto antes, para que se evitem prejuízos no desenvolvimento e no funcionamento global de uma criança (Yorbik et al., 2004).

Depressão infanto-juvenil
Sabe-se que existe uma tendência natural em se pensar na infância como um período feliz, livre de preocupações ou responsabilidades, apesar das pesquisas mostrarem que as crianças também sofrem de depressão. Até o momento é consenso geral entre pesquisadores e clínicos que crianças e adolescentes podem deprimir (F I. Lee, 2007), apesar da pouca concordância que existe em relação à natureza e a estrutura dos sintomas depressivos nessa população, que costumam se apresentar de modos distintos para as diferentes faixas etárias (Birmaher et al, 2004; González-Tejeras et al., 2005), tornando o reconhecimento dos sintomas um desafio para muitos especialistas. Sentimentos de tristeza em função de perdas ou manifestações de raiva decorrentes de frustração são na maioria das vezes reações afetivas normais e passageiras e não requerem tratamento. Porém, dependendo da intensidade, persistência e presença de outros sintomas concomitantes, a tristeza e a irritabilidade podem ser indícios de quadros afetivos em crianças e adolescentes. Sintomas disfóricos do dia-a-dia não apresentam conotação psiquiátrica e ocorrem como uma resposta afetiva aos eventos cotidianos, com quadros breves e que não comprometem as condutas adaptativas das crianças (Fu- I L, 2007).
Estudos mostram que a síndrome depressiva pode variar em função do funcionamento cognitivo, habilidade social e grau de desenvolvimento biológico de cada criança que, por sua vez, apresenta dificuldades para nomear, reconhecer e demonstrar seus próprios sentimentos (Weiss e Garber, 2003; González-Tejeras et al., 2005; Luby et al., 2006).
Sabemos hoje que a idade de uma criança e o grau de desenvolvimento psíquico exercem papel importante nos sintomas e manifestações clínicas da depressão (Weller EB 1992; Castel S, 1997). Assim, nos primeiros anos de vida, onde ainda não há a aquisição plena da linguagem verbal, devemos estar atentos à expressão facial e à postura da criança, já que nesse período ela pode não ter condições de relatar seus próprios sentimentos e emoções.
O lactente pode evidenciar retraimento social, desânimo e desinteresse em atividades de lazer, bem como apatia, inapetência e pouca resposta a estímulos sensoriais, como por exemplo, o abraço (Luby et al., 2003). Mas ele pode ser do tipo que chora muito e que é difícil de ser consolado, ou ainda aquela criança nitidamente irritada, agressiva e inquieta, com alternâncias do humor, desde tristeza profunda a momentos de descontrole e raiva, com as chamadas “tempestades afetivas”. No primeiro ano de vida, a perda de habilidades já adquiridas, como regressão da linguagem, ecolalia e enurese, é freqüente. Dos dois aos cinco anos, é comum a dependência excessiva, com ansiedade de separação, pouco controle dos impulsos, irritabilidade ou instabilidade emocional. A partir dos três aos quatro anos, as crianças devem ser entrevistadas face a face, para que se possa obter, com as informações fornecidas pelos pais, um histórico completo e uma definição de diagnóstico confiável (Fu- I, 1996).
Crianças até seis anos, na pré-escola, quando deprimidas, não raro estão com o peso abaixo da média para a idade e apresentam a fisionomia triste ou de seriedade, irritação, inapetência, agitação psicomotora ou hiperatividade, insônia com ansiedade, balanceios, estereotipias e agressividade contra si mesmo ou contra terceiros (Fu–I et al., 2000). Podem manifestar cansaço intenso com falta de energia, anedonia, com perda do prazer e do interesse em atividades que antes gostava e até para brincar (Luby et al., 2006) . Comumente queixam-se de sentimento de tédio e de que nada presta e tudo é chato. Queixas somáticas vagas e inespecíficas como dor de cabeça, dor muscular e ou abdominal são freqüentes e correspondem a sentimentos de angústia e sofrimento emocional (Luby et al., 2003).
Na idade escolar, as crianças deprimidas, além de aparentarem tristeza, se mostram irritadas e emocionalmente instáveis. Podem manifestar indiferença afetiva, e não ter reação a estímulos, seja eles positivos ou negativos. É comum a anedonia com isolamento social e familiar voluntários. Sintomas clássicos da depressão como lentidão de movimentos, voz lenta, monótona e monocórdica, e a expressão de sentimentos de desesperança e sofrimento emocional são mais comuns nessa idade, mas é importante ressaltar que agitação psicomotora, hiperatividade e pouco controle dos impulsos também são sintomas freqüentes nessas crianças, fato que pode confundir o diagnóstico quando feito por especialista não experiente no assunto. O aumento da distraibilidade e a dificuldade de memorização são comuns e levam a uma piora do desempenho escolar.
Kovacs et al.(2003) dão ênfase à investigação de disforia, que é a anedonia associada a mudança de humor, em desproporção ao estímulo, para o diagnóstico de depressão maior em crianças de idade escolar. A perturbação de crianças frente a estímulos e a hiper-reatividade hostil e agressiva nem sempre são valorizadas como sendo a expressão de um sofrimento, nessas crianças.
Segundo Lee Fu-I, em crianças e adolescentes, as súbitas mudanças de comportamento não justificadas por fatores de estresse são de extrema importância e devem sempre ser valorizadas e investigadas como sendo sintomas potencialmente depressivos. A irritabilidade é um sintoma freqüente, embora pouco específico na psiquiatria da infância, podendo ser visto em crianças normais, mas é um sintoma realmente comum entre crianças e adolescentes deprimidos. (Fu-I et al., 2000). A irritabilidade torna-se patológica quando qualquer estímulo é sentido como perturbador e a criança ou adolescente apresenta hiper-reatividade de característica desagradável, hostil e eventualmente agressiva (Dalgalarrondo P, 2000). Alterações do humor com forte componente de irritação, amargura, desgosto ou agressividade se constituem em quadros disfóricos que podem estar presentes nos transtornos afetivos. Provavelmente, por conta de estarem em desenvolvimento, as crianças não tem capacidade par compreender o que acontece internamente e, com freqüência, apresentam comportamento agressivo (Curatolo, 1999). Portanto, é fundamental que crianças e adolescentes que apresentem mudanças súbitas de comportamento e não justificadas por fatores de estresse não passe pelo especialista sem que o mesmo pense na possibilidade de depressão. Em Psiquiatria da Infância e Adolescência é comum que crianças com alterações do humor do tipo disfórico, antes adequadas e adaptadas socialmente possam passar a apresentar condutas irritáveis, destrutivas e agressivas, com violação de regras sociais anteriormente aceitas, como parte do quadro depressivo.
Lamentavelmente, o que se vê na prática diária é o predomínio de reações defensivas e hostis por parte dos familiares, educadores e outros profissionais da área de saúde, que, ignorantes da situação, acabam interpretando a irritabilidade da criança de modo errôneo e simplista, na maioria das vezes.
É sabido que crianças deprimidas geralmente têm auto-estima baixa e que falam de si mesmas de modo negativo, se achando ruins, tontas e se sentindo fracassadas e preteridas pela família, muitas vezes com a certeza de que ninguém se preocupa com elas. A culpa pode ser entendida pela fala de que tudo está errado por causa da sua existência ou na de que ela deve ser punida ou que seria melhor morrer (Mesquita e Gilliam, 1994). A relação entre o apetite e o peso na depressão pode variar, desde perda de peso até o seu ganho, muitas vezes chegando a graus importantes de obesidade. Igualmente, queixas de pesadelos ou de despertares noturnos são freqüentes, bem como insônias acompanhadas de ansiedade ou rituais noturnos. O aumento da distraibilidade e a dificuldade de memorização são comuns e levam a um comprometimento do desenvolvimento escolar, podendo confundir a depressão com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (Yorbik et al., 2004; González-Tejeras et al., 2005), transtorno comum em crianças e adolescentes, cujos sintomas cardinais são a desatenção, hiperatividade e impulsividade, com promoção de piora no rendimento escolar.
Os adolescentes deprimidos relatam claramente sentimentos depressivos como a desesperança e a dificuldade de concentração e freqüentemente se mostram irritados e hostis. A desesperança, descrença e a sensação de que as coisas jamais mudarão podem levá-los a tentar o suicídio. Aumento ou diminuição do peso, apetite e da quantidade de sono podem variar, bem como é visto graus variados de falta de energia e desinteresse pelas atividades antes prazerosas. Isolamento social voluntário, hipersensibilidade ao fracasso, rejeição e frustração , bem como a falta de perspectivas e expectativas de futuro também são freqüentes. Igualmente, o uso e abuso de substâncias psicoativas é comumente observado nesses casos e pode estar relacionado a “autotratamento ou automedicação”, para o alívio da dor causada pela depressão (González-Tejeras et al., 2005).
Pensamentos de suicídio, vontade de morrer ou planejar a própria morte são encontrados em todas as idades, mudando apenas os graus de intensidade e freqüência, sendo menos freqüente em crianças e mais comum nos adolescentes e devem ser abordados sempre e em qualquer idade (Liu et al., 2006).
Utiliza-se os mesmos critérios diagnósticos para criança, adolescentes e adultos. Entretanto, o reconhecimento e diagnóstico de depressão são mais difíceis na Infância e Adolescência, principalmente porque eles podem ter dificuldade em reconhecer e nomear seus próprios sentimentos.
Cumpre ressaltar que cerca da metade dos casos de transtornos afetivos têm um outro diagnóstico psiquiátrico em comorbidade, como por exemplo, algum tipo de transtorno de ansiedade. A associação desses dois transtornos é tão grande que sintomas de ansiedade na infância podem ser sinal preditivo mais eficiente par depressão do que para transtornos de ansiedade (Birmaher B, 1997).
Cumpre lembrar que adolescentes do sexo feminino têm maior risco de desenvolver depressão do que os do sexo masculino. Em casos de depressão na infância, observa-se história familiar de depressão com início precoce. Estressores psicossociais, presença simultânea de outros transtornos psiquiátricos ou doença crônicas são fatores doença risco para desenvolvimento de depressão em crianças e adolescentes.

Conclusão

Os transtornos afetivos podem ocorre na Infância e Adolescência. o diagnóstico e o tratamento precoces podem mudar o futuro de uma criança, evitando prejuízos ao desenvolvimento e favorecendo a elaboração de vivencias relacionadas aos transtornos afetivos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

comentários de leitores do blog - descobri que tenho tdah, um novo mundo




Date: Wed, 14 Jan 2009 03:38:34 -0800From: B.
Subject: Descobri que tenho TDAH - um novo mundo
To: evelynvin@hotmail.com


Oi Evelyn,


Eu tenho lido muito o seu blog e as suas dicas. Já falei isso, mas repito: Você é excepcionalmente uma pessoa interessada em ajudar. Isso me deixa esperançoso.Não tenho condições de frequentar os encontros do ABDA no Rio de Janeiro ou São Paulo, mas acompanho pelo site.Depois que descobri o TDAH em minha vida, o que me vinha atormentando a 41 anos, me sinto em outro mundo, em outra realidade. Apesar de estar iniciando ainda o tratamento com o Dr Milton Baggio, que você deve conhecer, pois foi professor de medicina na UFPR por muitos anos e é muito conceituado. Outra pessoa que está me ajudando é a Dra Angela Brand, Psicóloga, que me acompanha nesse trajeto.Já adquiri o livro "No mundo da Lua" e estou procurando "Um dia na vida de um adulto com TDAH" para saber o que fazer. Me associei ao ABDA e frequento também o site "ADHD Central" (http://www.healthcentral.com/adhd/), onde tenho achado muitas coisas interessantes.Quero agradecer a você por estar escrevendo e passando conhecimento para que eu possa caminhar e não desistir.Não era fácil suportar sem conhecer. Conhecendo o problema, não se trorna fácil, mas saberei como contornar e conviver com as deficiências, descobrindo formas de ajustes e como melhorar.Obrigado.Felicidades!Cordialmente, B.


Oi, B.,
que bom ouvir opiniões que nem a sua - faz bem, pois o trabalho é árduo mas com muitas gratificações e boas surpresas. ontem eu comecei uma terapia de grupo só para rapazes de 20 a 32 anos, com tdah e que nao se encontram bem sucedidos na vida o quanto gostariam (ou poderiam). No grupo vamos trabalhar constructos importantíssimos como treino de habilidades sociais, técnica de resolucao de problemas, assertividade, automoticação, leitura com foco, resiliencia, entre outros. Ontem, já deu pra ver que essa terapia em grupo voltada especificamente para as dificuldades do portador do tdah certamente dará ótimos frutos. Eu te desejo um tratamento prospero, que vc encontre o seu espaço e que vc alcance toda a sua performance global na vida!!
abs, obrigada pelas palavras de elogio
o que precisar pode contar comigo
evelyn