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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Classificação das depressões

A depressão é um problema particularmente complexo, não só devido ao conjunto de numerosos sintomas associados, mas também à intensidade variável com que pode manifestar-se. Para fazer frente a esta complexidade, os psiquiatras tiveram de estabelecer uma classificação, levando em consideração que o rigor e a precisão do diagnóstico são imprescindíveis para a escolha do tratamento mais adequado. Como classificar? Durante muito tempo, a depressão foi encarada ou como uma doença mental de origem orgânica ou como um distúrbio psicológico, fruto dos acontecimentos da vida e da personalidade. Esta forma dupla de encarar o problema deu origem a dois tipos de erros. O primeiro consiste em abordar a depressão de um ponto de vista exclusivamente biológico e considerar os aspectos psicológicos circunstâncias acidentais. Neste caso, corre-se o risco de limitar o tratamento à administração de medicamentos, sem prestar atenção aos problemas psíquicos nem à psicodinâmica dos sintomas, ou seja, à história e evolução ou ao desenvolvimento desses sintomas e ao papel que desempenharam na vida da pessoa com depressão. No outro extremo, pode acontecer que alguns especialistas neguem a intervenção de fatores biológicos e se centrem apenas na análise psicológica. Embora esta abordagem – que consiste, essencialmente, em compreender e reinterpretar a história pessoal – seja sempre útil, se for a única, acaba por ser ineficaz em inúmeros casos de depressão. Na realidade, o debate entre estas duas abordagens opostas é reflexo de uma certa dificuldade em aceitar a idéia de que a ação humana depende tanto do funcionamento do corpo (o biológico) como das vivências psicológicas, fruto do intercâmbio do indivíduo com o mundo exterior. As classificações mencionadas a seguir são apenas modelos explicativos. Trata-se de conceitos elaborados a partir das diferenças observadas na experiência clínica, que facilitam o diagnóstico e cujo objetivo principal é a escolha do tratamento mais eficaz. Sendo assim, a classificação da depressão pode ser baseada na origem do distúrbio depressivo, sendo denominadas depressões endógenas e exógenas. Depressão endógena A depressão pode estar ligada a fatores constitucionais e, por isso, ser de origem orgânica. Por esse motivo, surge com maior freqüência em algumas famílias do que em outras, o que parece demonstrar a influência da herança genética. Atualmente, está praticamente comprovado que certas perturbações bioquímicas do cérebro têm um papel fundamental nesta doença. A depressão endógena surge sem causas que a desencadeiem, ou seja, sem motivos ou acontecimentos externos que possam justificar o seu aparecimento. Mesmo quando o paciente se refere a fatores externos, estes parecem insignificantes face à gravidade da depressão. Para o doente, o seu estado torna-se inexplicável. É possível que esta depressão desapareça por si só (fenômeno de remissão espontânea). Neste caso, o paciente recupera o seu estado, tal como estava antes do início da fase depressiva. Contudo, também pode ocorrer uma recaída. Algumas pessoas podem mesmo sofrer vários episódios depressivos por ano, fazendo com que o desespero e o sofrimento moral do doente sejam cada vez mais intensos. Formas de depressão endógena A depressão endógena pode apresentar-se de duas formas: 1 – Unipolar, na qual apenas um estado se manifesta, caracterizado por: – perda de peso (o doente recusa-se a comer); – insônia ou hipersonia; – agitação ou lentificação psicomotora; – perda de interesse e de prazer pelas atividades habituais; – fadiga constante; – sentimento de indignidade e culpa e, por vezes, convicção de não ser possível curar-se; – redução da capacidade de pensar e de se concentrar. 2. Bipolar, que é o episódio depressivo que ocorre nos portadores do transtorno bipolar do humor, muito menos freqüente do que a depressão unipolar, afetando apenas um por cento da população brasileira. O estado de humor pode oscilar em fases, do indivíduo alterna do depressivo ao maníaco (ou eufórico) (daí este distúrbio ser conhecido no passado como psicose maníaco-depressiva e hoje o termo psicose foi abolido porque o paciente fora das crises volta ao seu padrão de funcionamento normal, o chamado “restitutium ad integrum”), e por isso hoje ele é chamado de Transtorno Afetivo do Humor, Transtorno do Humor ou Transtorno Bipolar do Humor, seguindo um ciclo específico que depende de cada pessoa. Na fase maníaca, o paciente sente-se onipotente, em plena forma, demonstrando um otimismo pouco realista e exagerado e tem projetos em abundância, na maioria das vezes impossíveis e caóticos. São freqüentes os gastos excessivos, uso abusivo de álcool e/ou drogas, podem ficar hipersexualizados e normalmente infligem leis e normas sociais. A família pode se queixar de sua atividade frenética e desordenada, bem como de hostilidade e falta de sentido da realidade, a qual pode conduzi-lo às idéias mais extravagantes. Depois, o doente cai num estado depressivo, cuja dor moral se torna mais intensa a cada recaída. Quase todas as pessoas que sofrem de perturbação transtorno bipolar têm, nos seus antecedentes familiares, parentes que também passaram por este tipo de distúrbio, o que parece demonstrar a existência de um fator genético. Tratamento da depressão endógena Normalmente, a depressão endógena responde bem aos seguintes tratamentos: - antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina – ISRS - estabilizadores do Humor – como o lítio, divalproato de sódio, carbamazepina, topiramato (atualmente tem sido recomendado a associação de estabilizador de humor nos casos de depressão unipolar). - antipsicóticos de preferência os atípicos (menos efeitos colaterais) para depressões unipolares que cursam com sintomas psicóticos - quetiapina, risperidona, olanzapina, aripiprazol ou os típicos – haloperidol, trifluoperazina e outros. - ECT – eletroconvulsoterapia – para depressões gravíssimas e refratárias a todos os antidepressivos prescritos. É feito em ambiente hospitalar com anestesia geral e seu efeito é maravilhoso. Muito indicado para idosos deprimidos graves e gestantes. Risco de suicídio – hospitalização com acompanhamento as 24hs do dia, além de antidepressivos, estabilizadores do humor, antipsicóticos e eventualmente ECT. Transtorno Bipolar do Humor – - fase depressiva os mesmos psicofármacos para as depressões unipolares, dando prioridade aos estabilizadores do humor. Só entrar com antidepressivo e antipsicótico se for realmente necessário. O anticonvulsivante Lamotrigina tem sido usado com sucesso ultimamente para os casos de depressões unipolares. - fase maníaca – - estabilizadores do humor – Lítio (padrão-ouro) para todos os casos, mas para os cicladores rápidos damos preferência para o divalproato de sódio, carbamazepina, oxcarbamazepina, topiramato. - antipsicóticos de preferência os atípicos – ver listagem acima. – antidepressivos, como os tricíclicos, os inibidores da monoaminoxidase não se usam há mto tempo. ou os inibidores seletivos de recaptação da serotonina; – choques elétricos ou terapia eletroconvulsiva, nos casos em que o recurso da medicação não é eficaz ou quando se trata de depressão severa, com elevado risco de suicídio; [nossa, isso ainda existe???] – lítio, para as perturbações [transtornos?] bipolares. Além da intervenção mais biológica, também é recomendada, em paralelo, a psicoterapia, principalmente as terapias interpessoais e a cognitivo-comportamental, que, segundo diversos estudos, são as mais eficazes. Estes tipos de intervenções são particularmente úteis, por aumentar a adesão ao tratamento com medicamentos. Porém, as psicoterapias não têm sido consideradas eficazes para tratar, isoladamente, as perturbações [ os transtornos bipolares. Seja qual for o tratamento, deve ser suficientemente longo para que o doente possa recuperar completamente o equilíbrio, como veremos com mais detalhes no Capítulo 6. Depressão exógena ou reativa Este tipo de depressão surge como conseqüência de um acontecimento traumático ou choque emocional: morte de um ente querido, divórcio ou separação, desemprego, decepção ou rompimento sentimental, mudança de ambiente, etc. Nestes casos, a depressão está ligada à perda de um objeto de amor, que pode significar a perda de uma pessoa querida ou de bens materiais, uma mudança profissional ou de residência, etc. A imensa tristeza que resulta deste tipo de situação é o luto, sendo este uma reação normal e, inclusive, necessária para se poder superar a perda. Um luto entre seis meses e um ano é considerado normal – tudo depende da importância que o objeto de amor tinha aos olhos do indivíduo, bem como da intensidade e do tipo de amor que este último sentia. Em relação ao amor perdido também pode se entender a própria auto-estima. Assim, como acontece hoje com freqüência, a perda do emprego e a situação de inatividade são acontecimentos que privam o indivíduo de uma razão de viver e diminuem as suas responsabilidades e rendimentos, obrigando-o, em certos casos, a aceitar uma situação profissional ou social menos favorável. Outro exemplo: a aposentadoria, sobretudo quando antecipada, pode constituir uma perda de auto-estima e de valor pessoal. Nesse caso, muitas vezes, o fato de não trabalhar é encarado como sinônimo de inutilidade e o aposentado se sente com o ego ferido. Assim, o luto é uma reação mais ou menos patológica, embora compreensível, diante de um acontecimento objetivamente traumático. Mas a maioria das pessoas afetadas acaba recuperando o equilíbrio, com ou sem ajuda exterior. Pelo contrário, o luto resultante de uma personalidade menos equilibrada ou, simplesmente, frágil será um luto mal assumido, que pode desencadear uma depressão. Alguns anos mais tarde, a tristeza ainda é tão intensa e profunda como no início, a vida não anda para frente e, além disso, pode instalar-se um autêntico culto obsessivo pelo objeto de amor perdido. É um fenômeno freqüente nas pessoas idosas que perdem o seu cônjuge e ficam sozinhas. Normalmente, já não têm o impulso vital necessário para superar a crise e desenvolver outras relações humanas. Em geral, neste tipo de depressão, as psicoterapias interpessoais e as cognitivo-comportamentais são eficazes. De qualquer modo, em função da gravidade da depressão, o recurso a medicamentos, como os antidepressivos de que falamos, pode ser útil, quando combinado com a psicoterapia. Depressões primárias e secundárias A depressão denomina-se primária quando surge isoladamente e secundária quando o episódio depressivo resulta de: – outra doença, como câncer, mal de Parkinson, mononucleose, etc. De uma forma geral, a adaptação a doenças crônicas, principalmente quando acompanhadas de dor ou perda progressiva de capacidades, pode resultar em depressão; – algum traumatismo, como uma mutilação, paralisia ou cegueira; – uso de certas substâncias, como drogas ou medicamentos. Outras classificações de depressão Dependendo dos sintomas, da duração e da intensidade, a depressão varia entre uma alteração de humor, no sentido negativo, de leve a moderada (distimia – veja a página 84), e a depressão maior, podendo até haver características mais psicóticas, como delírios ou alucinações auditivas. As depressões podem ainda ser classificadas em: – crônicas, quando os sintomas se mantêm, no mínimo, durante dois anos; – atípicas, havendo, neste caso, melhorias no humor ou até euforia em conseqüência de acontecimentos positivos. No entanto, são acompanhadas por, pelo menos, dois dos seguintes sintomas: perda de peso, aumento de apetite, excesso de sono e sensação de pernas e/ou braços pesados. Quanto ao momento em que surge a depressão, destacam-se: – a depressão pós-parto. Esta é relativamente comum nas mulheres e pode começar dentro de um período de uma a quatro semanas após o nascimento de um filho; – a perturbação depressiva pré-menstrual ou tensão pré-menstrual - Na semana que antecede a menstruação, podem ocorrer sintomas de depressão que interferem com as atividades do dia-a-dia, mas que desaparecem alguns dias após o início da mesma; – a depressão sazonal. Surge no início de um período do ano e desaparece no seu final. É mais comum no outono ou no inverno, quando os dias começam a encurtar. BOX 1 Um exemplo de depressão endógena P. é uma mulher de 42 anos, mãe de quatro crianças. De repente, já não consegue cuidar da casa, não dorme nem come, sente-se completamente desesperada e não pára de chorar. Algum tempo depois, perde as forças e mantém-se em silêncio, passando dias inteiros na cama. A família não entende o que se passa, já que, aparentemente, não ocorreu nenhum episódio doloroso que pudesse justificar uma depressão, e pede para que P. seja internada. Após um tratamento com antidepressivos, o ânimo de P. começa a mudar. Escreve cartas ao marido, bem como a outros membros da família, queixando-se de que, por ser muito submissa, permitiu que fosse explorada. Acrescenta que “a partir de agora, acabou” e que quer ir a Paris para ser alguém, pois sente que é uma grande artista. Por outro lado, revela-se irritável, fala muito e desenvolve uma atividade febril. A sua família fica surpresa, porque, até então, P. era uma pessoa relativamente apática. A instituição onde está hospitalizada diagnostica uma psicose maníaco-depressiva Transtorno Bipolar e lhe administra sais de lítio. Na primeira alta do hospital, ela gasta dinheiro exageradamente e dilapida o orçamento da família para renovar o seu guarda-roupa. O ataque de depressão que se segue a este episódio começa de forma brutal, sem fatores que o desencadeiem. Depois, dá-se um novo episódio de mania. BOX 2 Um exemplo de depressão exógena ou reativa G. é uma idosa de 84 anos que sofre de catarata. A sua visão deficiente já não lhe permite passear a seu bel-prazer pela pequena cidade onde vive e conhece toda a gente. Mora com as duas filhas (uma é inválida e a outra, solteira), tem uma vida muito ocupada e passa pouco tempo em casa. G. voltou todas as suas necessidades afetivas para o cão que a acompanha há 18 anos, com quem fala e que a segue para todo o lado, mesmo quando anda pelas várias divisões da casa. O animal parece querer protegê-la e avisá-la dos obstáculos, como um cão-guia. Quando o cão morre, a tristeza de G. é imensa e custa a diminuir. A sua família propõe-lhe comprar um cachorrinho, mas a idosa não aceita. Em pouco tempo, G. começa a se fechar em si mesma. Das poucas vezes em que fala, evoca a perda do cão, do qual ainda não conseguiu se despedir. A sua família não consegue entender este tipo de reação. Na verdade, é muito freqüente, principalmente em pessoas idosas que vivem sós ou num ambiente difícil, que se produza um apego muito forte, até exagerado, a um animal de estimação. Tratando-se de um objeto de amor, a sua perda pode conduzir à depressão. BOX 3 Um exemplo de depressão secundária A. é uma jovem que vive com o marido e a filha. Devido às dificuldades que tem em andar, consulta um médico e se submete a exames detalhados. Assim, descobre-se que A. padece de uma doença muito rara, progressiva, irreversível, incurável e que a deixará parcialmente incapacitada: uma miopatia progressiva ou degenerativa – uma degeneração dos músculos, o que explica as suas dificuldades motoras. Quando tem conhecimento da natureza da sua doença e do fato de ser incurável, A. entra em depressão, ainda mais quando os sintomas evoluem muito rapidamente. A jovem começa a ter medo de cair ou de ficar paralisada de repente, no meio da rua. Por isso, pede ao marido que a acompanhe para todo o lado, coisa que ele faz sem hesitar. Contudo, os receios de A. aumentam progressivamente, convertendo-se numa autêntica agorafobia (fobia a espaços abertos). Ao tomar consciência do seu estado, a jovem decide finalmente seguir uma psicoterapia. Pela primeira vez, consegue chorar e lamentar-se, já que diante do marido e da filha tenta controlar-se, para que não percebam seu desespero. Considera-se incapaz de aceitar a transformação do seu corpo e de ver como este vai se tornando algo disforme e esquelético, quando antes tinha sido bonito e harmonioso. A idéia de perder a sua imagem de mulher, a sua feminilidade, faz com que sofra intensamente. Além disso, teme que o marido se canse de uma mulher doente e feia, que deixe de amá-la e comece a desejar outros corpos mais vivos e sãos. Apesar de a relação do casal sempre ter se baseado na confiança, A. surpreende-se vigiando o marido e sentindo ciúmes. Contudo, não se atreve a falar sobre os seus sentimentos, porque os considera mesquinhos e egocêntricos. A jovem fica cada vez mais deprimida, deixa de conseguir dormir, come pouco e evita o contato e encontros com outras pessoas. Ao perder os pontos de referência da sua feminilidade, A. perde também a sua identidade: não sabe quem é nem onde quer ou pode chegar. Por vezes, já se dá como morta e preocupa-se muito por causa da filha. A terapia ajuda-a a compreender que, além da miopatia, ela está desenvolvendo outra doença: a depressão. Mas esta última pode ser tratada, desde que não desista de lutar, combatendo a doença

domingo, 15 de fevereiro de 2009

DEPRESSÃO - TIPOS, BIOLÓGICA, EMOCIONAL, UNIPOLAR, BIPOLAR - CASOS CLÍNICOS


Classificação das depressões
A depressão é um problema particularmente complexo, não só devido ao conjunto de numerosos sintomas associados, mas também à intensidade variável com que pode manifestar-se. Para fazer frente a esta complexidade, os psiquiatras tiveram de estabelecer uma classificação, levando em consideração que o rigor e a precisão do diagnóstico são imprescindíveis para a escolha do tratamento mais adequado.
Como classificar?
Durante muito tempo, a depressão foi encarada ou como uma doença mental de origem orgânica ou como um distúrbio psicológico, fruto dos acontecimentos da vida e da personalidade. Esta forma dupla de encarar o problema deu origem a dois tipos de erros.
O primeiro consiste em abordar a depressão de um ponto de vista exclusivamente biológico e considerar os aspectos psicológicos circunstâncias acidentais. Neste caso, corre-se o risco de limitar o tratamento à administração de medicamentos, sem prestar atenção aos problemas psíquicos nem à psicodinâmica dos sintomas, ou seja, à história e evolução ou ao desenvolvimento desses sintomas e ao papel que desempenharam na vida da pessoa com depressão.
No outro extremo, pode acontecer que alguns especialistas neguem a intervenção de fatores biológicos e se centrem apenas na análise psicológica. Embora esta abordagem – que consiste, essencialmente, em compreender e reinterpretar a história pessoal – seja sempre útil, se for a única, acaba por ser ineficaz em inúmeros casos de depressão.
Na realidade, o debate entre estas duas abordagens opostas é reflexo de uma certa dificuldade em aceitar a idéia de que a ação humana depende tanto do funcionamento do corpo (o biológico) como das vivências psicológicas, fruto do intercâmbio do indivíduo com o mundo exterior.
As classificações mencionadas a seguir são apenas modelos explicativos. Trata-se de conceitos elaborados a partir das diferenças observadas na experiência clínica, que facilitam o diagnóstico e cujo objetivo principal é a escolha do tratamento mais eficaz. Sendo assim, a classificação da depressão pode ser baseada na origem do distúrbio depressivo, sendo denominadas depressões endógenas e exógenas.

Depressão endógena
A depressão pode estar ligada a fatores constitucionais e, por isso, ser de origem orgânica. Por esse motivo, surge com maior freqüência em algumas famílias do que em outras, o que parece demonstrar a influência da herança genética. Atualmente, está praticamente comprovado que certas perturbações bioquímicas do cérebro têm um papel fundamental nesta doença.
A depressão endógena surge sem causas que a desencadeiem, ou seja, sem motivos ou acontecimentos externos que possam justificar o seu aparecimento. Mesmo quando o paciente se refere a fatores externos, estes parecem insignificantes face à gravidade da depressão. Para o doente, o seu estado torna-se inexplicável.
É possível que esta depressão desapareça por si só (fenômeno de remissão espontânea). Neste caso, o paciente recupera o seu estado, tal como estava antes do início da fase depressiva. Contudo, também pode ocorrer uma recaída. Algumas pessoas podem mesmo sofrer vários episódios depressivos por ano, fazendo com que o desespero e o sofrimento moral do doente sejam cada vez mais intensos.

Formas de depressão endógena
A depressão endógena pode apresentar-se de duas formas:
1 – Unipolar, na qual apenas um estado se manifesta, caracterizado por:
– perda de peso (o doente recusa-se a comer);
– insônia ou hipersonia;
– agitação ou lentificação psicomotora;
– perda de interesse e de prazer pelas atividades habituais;
– fadiga constante;
– sentimento de indignidade e culpa e, por vezes, convicção de não ser possível curar-se;
– redução da capacidade de pensar e de se concentrar.

2. Bipolar, que é o episódio depressivo que ocorre nos portadores do transtorno bipolar do humor, muito menos freqüente do que a depressão unipolar, afetando apenas um por cento da população brasileira.
O estado de humor pode oscilar em fases, do indivíduo alterna do depressivo ao maníaco (ou eufórico) (daí este distúrbio ser conhecido no passado como psicose maníaco-depressiva e hoje o termo psicose foi abolido porque o paciente fora das crises volta ao seu padrão de funcionamento normal, o chamado “restitutium ad integrum”), e por isso hoje ele é chamado de Transtorno Afetivo do Humor, Transtorno do Humor ou Transtorno Bipolar do Humor, seguindo um ciclo específico que depende de cada pessoa. Na fase maníaca, o paciente sente-se onipotente, em plena forma, demonstrando um otimismo pouco realista e exagerado e tem projetos em abundância, na maioria das vezes impossíveis e caóticos. São freqüentes os gastos excessivos, uso abusivo de álcool e/ou drogas, podem ficar hipersexualizados e normalmente infligem leis e normas sociais.
A família pode se queixar de sua atividade frenética e desordenada, bem como de hostilidade e falta de sentido da realidade, a qual pode conduzi-lo às idéias mais extravagantes. Depois, o doente cai num estado depressivo, cuja dor moral se torna mais intensa a cada recaída.
Quase todas as pessoas que sofrem de perturbação transtorno bipolar têm, nos seus antecedentes familiares, parentes que também passaram por este tipo de distúrbio, o que parece demonstrar a existência de um fator genético.

Tratamento da depressão endógena
Normalmente, a depressão endógena responde bem aos seguintes tratamentos:
- antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina – ISRS
- estabilizadores do Humor – como o lítio, divalproato de sódio, carbamazepina, topiramato (atualmente tem sido recomendado a associação de estabilizador de humor nos casos de depressão unipolar).
- antipsicóticos de preferência os atípicos (menos efeitos colaterais) para depressões unipolares que cursam com sintomas psicóticos - quetiapina, risperidona, olanzapina, aripiprazol ou os típicos – haloperidol, trifluoperazina e outros.
- ECT – eletroconvulsoterapia – para depressões gravíssimas e refratárias a todos os antidepressivos prescritos. É feito em ambiente hospitalar com anestesia geral e seu efeito é maravilhoso. Muito indicado para idosos deprimidos graves e gestantes.

Risco de suicídio – hospitalização com acompanhamento as 24hs do dia, além de antidepressivos, estabilizadores do humor, antipsicóticos e eventualmente ECT.

Transtorno Bipolar do Humor –
- fase depressiva
os mesmos psicofármacos para as depressões unipolares, dando prioridade aos estabilizadores do humor. Só entrar com antidepressivo e antipsicótico se for realmente necessário. O anticonvulsivante Lamotrigina tem sido usado com sucesso ultimamente para os casos de depressões unipolares.

- fase maníaca –
- estabilizadores do humor – Lítio (padrão-ouro) para todos os casos, mas para os cicladores rápidos damos preferência para o divalproato de sódio, carbamazepina, oxcarbamazepina, topiramato.
- antipsicóticos de preferência os atípicos – ver listagem acima.

– antidepressivos, como os tricíclicos, os inibidores da monoaminoxidase não se usam há mto tempo. ou os inibidores seletivos de recaptação da serotonina;
– choques elétricos ou terapia eletroconvulsiva, nos casos em que o recurso da medicação não é eficaz ou quando se trata de depressão severa, com elevado risco de suicídio; [nossa, isso ainda existe???]
– lítio, para as perturbações [transtornos?] bipolares.

Além da intervenção mais biológica, também é recomendada, em paralelo, a psicoterapia, principalmente as terapias interpessoais e a cognitivo-comportamental, que, segundo diversos estudos, são as mais eficazes. Estes tipos de intervenções são particularmente úteis, por aumentar a adesão ao tratamento com medicamentos. Porém, as psicoterapias não têm sido consideradas eficazes para tratar, isoladamente, as perturbações [ os transtornos bipolares.
Seja qual for o tratamento, deve ser suficientemente longo para que o doente possa recuperar completamente o equilíbrio, como veremos com mais detalhes no Capítulo 6.

Depressão exógena ou reativa
Este tipo de depressão surge como conseqüência de um acontecimento traumático ou choque emocional: morte de um ente querido, divórcio ou separação, desemprego, decepção ou rompimento sentimental, mudança de ambiente, etc.
Nestes casos, a depressão está ligada à perda de um objeto de amor, que pode significar a perda de uma pessoa querida ou de bens materiais, uma mudança profissional ou de residência, etc. A imensa tristeza que resulta deste tipo de situação é o luto, sendo este uma reação normal e, inclusive, necessária para se poder superar a perda. Um luto entre seis meses e um ano é considerado normal – tudo depende da importância que o objeto de amor tinha aos olhos do indivíduo, bem como da intensidade e do tipo de amor que este último sentia.
Em relação ao amor perdido também pode se entender a própria auto-estima. Assim, como acontece hoje com freqüência, a perda do emprego e a situação de inatividade são acontecimentos que privam o indivíduo de uma razão de viver e diminuem as suas responsabilidades e rendimentos, obrigando-o, em certos casos, a aceitar uma situação profissional ou social menos favorável. Outro exemplo: a aposentadoria, sobretudo quando antecipada, pode constituir uma perda de auto-estima e de valor pessoal. Nesse caso, muitas vezes, o fato de não trabalhar é encarado como sinônimo de inutilidade e o aposentado se sente com o ego ferido.
Assim, o luto é uma reação mais ou menos patológica, embora compreensível, diante de um acontecimento objetivamente traumático. Mas a maioria das pessoas afetadas acaba recuperando o equilíbrio, com ou sem ajuda exterior.
Pelo contrário, o luto resultante de uma personalidade menos equilibrada ou, simplesmente, frágil será um luto mal assumido, que pode desencadear uma depressão. Alguns anos mais tarde, a tristeza ainda é tão intensa e profunda como no início, a vida não anda para frente e, além disso, pode instalar-se um autêntico culto obsessivo pelo objeto de amor perdido. É um fenômeno freqüente nas pessoas idosas que perdem o seu cônjuge e ficam sozinhas. Normalmente, já não têm o impulso vital necessário para superar a crise e desenvolver outras relações humanas.
Em geral, neste tipo de depressão, as psicoterapias interpessoais e as cognitivo-comportamentais são eficazes. De qualquer modo, em função da gravidade da depressão, o recurso a medicamentos, como os antidepressivos de que falamos, pode ser útil, quando combinado com a psicoterapia.

Depressões primárias e secundárias
A depressão denomina-se primária quando surge isoladamente e secundária quando o episódio depressivo resulta de:
– outra doença, como câncer, mal de Parkinson, mononucleose, etc. De uma forma geral, a adaptação a doenças crônicas, principalmente quando acompanhadas de dor ou perda progressiva de capacidades, pode resultar em depressão;
– algum traumatismo, como uma mutilação, paralisia ou cegueira;
– uso de certas substâncias, como drogas ou medicamentos.

Outras classificações de depressão
Dependendo dos sintomas, da duração e da intensidade, a depressão varia entre uma alteração de humor, no sentido negativo, de leve a moderada (distimia – veja a página 84), e a depressão maior, podendo até haver características mais psicóticas, como delírios ou alucinações auditivas.
As depressões podem ainda ser classificadas em:
– crônicas, quando os sintomas se mantêm, no mínimo, durante dois anos;
– atípicas, havendo, neste caso, melhorias no humor ou até euforia em conseqüência de acontecimentos positivos. No entanto, são acompanhadas por, pelo menos, dois dos seguintes sintomas: perda de peso, aumento de apetite, excesso de sono e sensação de pernas e/ou braços pesados.

Quanto ao momento em que surge a depressão, destacam-se:
– a depressão pós-parto. Esta é relativamente comum nas mulheres e pode começar dentro de um período de uma a quatro semanas após o nascimento de um filho;

– a perturbação depressiva pré-menstrual ou tensão pré-menstrual - Na semana que antecede a menstruação, podem ocorrer sintomas de depressão que interferem com as atividades do dia-a-dia, mas que desaparecem alguns dias após o início da mesma;
– a depressão sazonal. Surge no início de um período do ano e desaparece no seu final. É mais comum no outono ou no inverno, quando os dias começam a encurtar.

BOX 1
Um exemplo de depressão endógena
P. é uma mulher de 42 anos, mãe de quatro crianças. De repente, já não consegue cuidar da casa, não dorme nem come, sente-se completamente desesperada e não pára de chorar. Algum tempo depois, perde as forças e mantém-se em silêncio, passando dias inteiros na cama. A família não entende o que se passa, já que, aparentemente, não ocorreu nenhum episódio doloroso que pudesse justificar uma depressão, e pede para que P. seja internada.
Após um tratamento com antidepressivos, o ânimo de P. começa a mudar. Escreve cartas ao marido, bem como a outros membros da família, queixando-se de que, por ser muito submissa, permitiu que fosse explorada. Acrescenta que “a partir de agora, acabou” e que quer ir a Paris para ser alguém, pois sente que é uma grande artista. Por outro lado, revela-se irritável, fala muito e desenvolve uma atividade febril. A sua família fica surpresa, porque, até então, P. era uma pessoa relativamente apática.
A instituição onde está hospitalizada diagnostica uma psicose maníaco-depressiva Transtorno Bipolar e lhe administra sais de lítio. Na primeira alta do hospital, ela gasta dinheiro exageradamente e dilapida o orçamento da família para renovar o seu guarda-roupa. O ataque de depressão que se segue a este episódio começa de forma brutal, sem fatores que o desencadeiem. Depois, dá-se um novo episódio de mania.

BOX 2
Um exemplo de depressão exógena ou reativa
G. é uma idosa de 84 anos que sofre de catarata. A sua visão deficiente já não lhe permite passear a seu bel-prazer pela pequena cidade onde vive e conhece toda a gente. Mora com as duas filhas (uma é inválida e a outra, solteira), tem uma vida muito ocupada e passa pouco tempo em casa. G. voltou todas as suas necessidades afetivas para o cão que a acompanha há 18 anos, com quem fala e que a segue para todo o lado, mesmo quando anda pelas várias divisões da casa. O animal parece querer protegê-la e avisá-la dos obstáculos, como um cão-guia.
Quando o cão morre, a tristeza de G. é imensa e custa a diminuir. A sua família propõe-lhe comprar um cachorrinho, mas a idosa não aceita. Em pouco tempo, G. começa a se fechar em si mesma. Das poucas vezes em que fala, evoca a perda do cão, do qual ainda não conseguiu se despedir. A sua família não consegue entender este tipo de reação.
Na verdade, é muito freqüente, principalmente em pessoas idosas que vivem sós ou num ambiente difícil, que se produza um apego muito forte, até exagerado, a um animal de estimação. Tratando-se de um objeto de amor, a sua perda pode conduzir à depressão.

BOX 3
Um exemplo de depressão secundária
A. é uma jovem que vive com o marido e a filha. Devido às dificuldades que tem em andar, consulta um médico e se submete a exames detalhados. Assim, descobre-se que A. padece de uma doença muito rara, progressiva, irreversível, incurável e que a deixará parcialmente incapacitada: uma miopatia progressiva ou degenerativa – uma degeneração dos músculos, o que explica as suas dificuldades motoras.
Quando tem conhecimento da natureza da sua doença e do fato de ser incurável, A. entra em depressão, ainda mais quando os sintomas evoluem muito rapidamente. A jovem começa a ter medo de cair ou de ficar paralisada de repente, no meio da rua. Por isso, pede ao marido que a acompanhe para todo o lado, coisa que ele faz sem hesitar. Contudo, os receios de A. aumentam progressivamente, convertendo-se numa autêntica agorafobia (fobia a espaços abertos). Ao tomar consciência do seu estado, a jovem decide finalmente seguir uma psicoterapia.
Pela primeira vez, consegue chorar e lamentar-se, já que diante do marido e da filha tenta controlar-se, para que não percebam seu desespero. Considera-se incapaz de aceitar a transformação do seu corpo e de ver como este vai se tornando algo disforme e esquelético, quando antes tinha sido bonito e harmonioso. A idéia de perder a sua imagem de mulher, a sua feminilidade, faz com que sofra intensamente. Além disso, teme que o marido se canse de uma mulher doente e feia, que deixe de amá-la e comece a desejar outros corpos mais vivos e sãos. Apesar de a relação do casal sempre ter se baseado na confiança, A. surpreende-se vigiando o marido e sentindo ciúmes. Contudo, não se atreve a falar sobre os seus sentimentos, porque os considera mesquinhos e egocêntricos.
A jovem fica cada vez mais deprimida, deixa de conseguir dormir, come pouco e evita o contato e encontros com outras pessoas. Ao perder os pontos de referência da sua feminilidade, A. perde também a sua identidade: não sabe quem é nem onde quer ou pode chegar. Por vezes, já se dá como morta e preocupa-se muito por causa da filha.
A terapia ajuda-a a compreender que, além da miopatia, ela está desenvolvendo outra doença: a depressão. Mas esta última pode ser tratada, desde que não desista de lutar, combatendo a doença de forma ativa.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

FOBIA SOCIAL E TRANSTORNO EVITATIVO DE PERSONALIDADE


COMO ELES COSTUMAM PENSAR?

“ A maioria das pessoas por vezes utilizam a evitação para aliviar a ansiedade ou prevenir o encontro com situações difíceis.”
“ Nos pacientes com TEP, a evitação social é evidente, sendo menos óbvia a evitação emocional e cognitiva, quando então eles evitam pensar sobre coisas que os façam sentir-se desconfortáveis . ”
“ Eles sentem uma intolerável tensão ao relacionarem-se com outras pessoas e a solidão torna-se um meio primário para evitá-la (Horney, 1945) . ”
“ Sem motivo, eles sentem que os outros o ignoram, o menosprezam, não o levam à sério, não fazendo questão da sua companhia. Seu autodesprezo o torna profundamente inseguro nas relações com as pessoas .”
Histórico
O termo “ personalidade evitativa ” foi usado pela primeira vez por Millon em 1969, que o descreveu como consistindo de um padrão de “desapego ativo”, representando “um temor e desconfiança dos outros”.
Definição
O TEP caracteriza-se por uma evitação comportamental, emocional e cognitiva generalizada e que é alimentada por pensamentos de autodepreciação, expectativas de rejeição interpessoal e uma forte crença de que emoções e pensamentos desagradáveis são intoleráveis. Tais pacientes apresentam várias crenças e/ou esquemas disfuncionais de longa duração e que interferem em seu funcionamento social de modo global.
Diagnóstico Diferencial
Transtorno Esquizóide de Personalidade, Fobia Social e Agorafobia. No primeiro, os pacientes se satisfazem com pouco ou nenhum envolvimento social e são indiferentes às críticas dos outros. Na Fobia, apesar de também temerem a humilhação e terem baixa confiança em suas habilidades sociais, eles não evitam relacionamentos íntimos, apenas determinadas circunstâncias sociais como falar ou comer em público, por exemplo. A evitação agorafóbica está ligada ao temor de estar em lugares abertos, longe de casa ou onde não recebam ajuda, caso algo ruim ocorra. Os pacientes com TEP frequentemente procuram tratamento médico por transtornos do Eixo I (transtornos psiquiátricos), como Transtorno de Ansiedade Generalizada, Fobia, Depressão, abuso de substâncias psicoativas, Transtornos do Sono etc. Transtornos Somatoformes e Dissociativos podem acompanhar o Transtorno Evitativo de Personalidade.
CARACTERÍSTICAS
§ As pessoas com TEP expressam desejo de afeição, aceitação e amizade, muito embora tenham poucos amigos e compartilhem de pouca intimidade com qualquer pessoa. Inclusive com o terapeuta, eles têm dificuldade para falar de tais assuntos. Apesar do desejo de relacionarem-se com pessoas, eles aprenderam ser melhor negar tais sentimentos e manterem um distanciamento interpessoal.
§ Muitas vezes, a solidão e tristeza são mantidas pelo medo da rejeição, que inibe o início ou a manutenção de amizades.
§ Tais pacientes se fecham e logo mudam de assunto caso o terapeuta insista em falar sobre assuntos que provoquem sentimentos desconfortáveis, geralmente oriundos de suas crenças falsas.
§ Alguns pacientes não toleram ficar disfóricos, ou seja, de mau humor ou aborrecidos ou irritados, usando das mais variadas atividades (por vezes até adições) para melhorarem o humor.
§ Mantém uma vigilância constante para que seus anseios por atenção não redundem em repetição da dor e angústia que experimentaram de encontros anteriores, só conseguindo protegerem-se pelo retraimento ativo.
§ Estes pacientes têm uma necessidade extraordinária de estruturação e controle externos dos objetos, a ponto deles(objetos) tornarem-se perigosos. A saída é a evitação destes objetos.
§ Tentativas de engajar estes pacientes em uma interação são encaradas como intrusão e trazem consigo uma ameaça de desorganização.
§
ALGUMAS CRENÇAS FALSAS
§ “ Eu sou socialmente incapaz e indesejável”
§ “ As outras pessoas são superiores a mim e me rejeitarão ou pensarão em mim de modo crítico, caso me conhecerem melhor “
§ “ Eu não consigo lidar com emoções fortes”
§ “ Ele vai achar que eu sou um fraco”
§ “ Se eu ceder a estes sentimentos negativos, eles prosseguirão para sempre; se eu os ignorar, talvez as coisas melhorem um dia”
A EVITAÇÃO SOCIAL
OS ESQUEMAS DISFUNCIONAIS
Eles têm várias crenças ou esquemas disfuncionais que interferem no seu funcionamento social. Fazem suposições falsas para explicar pensamentos negativos. Quando crianças, podem ter tido uma pessoa significativa que era altamente crítica e rejeitadora para com eles, fazendo com que desenvolvessem certos esquemas patológicos, como:
- “ Eu sou inadequado”
- “ Eu sou defeituoso”
- “ EU sou indesejável”
- “ Eu sou diferente”
- “ Eu não me enquadro”
- “ As pessoas não se importam comigo”
- “ As pessoas me rejeitarão”
- “ Eu devo ser uma pessoa má para minha mãe/pai me tratar assim”
- “ Eu devo ser diferente, por isso que não tenho amigos”
- “Se meus pais não gostam de mim, quem gostará ?”
- “Me acham burro, bonzinho, tolinho...”
MEDO DA REJEIÇÃO
Posteriormente, quando adultos, tais pacientes cometem o erro de supor que os outros reagirão com eles da mesma forma negativa que a pessoa significativa e crítica da infância. Continuamente, eles temem que os outros descubram que eles são deficientes e o rejeitem. Temem sentir-se disfóricos (irritados, agressivos) e acreditam não serem capazes de suportar tal sentimento. Por vezes, limitam severamente suas vidas para evitar a dor que esperam sentir quando alguém – a seu juízo – inevitavelmente os rejeitar.
Eles interpretam a rejeição de uma forma muito pessoal e tanto mais dolorosa quanto mais eles virem as reações negativas como sendo justificadas. Por exemplo:
- “ Ele me rejeitou porque sou inadequado”
- “ Se ele pensa que não sou inteligente, então deve ser verdade”
AUTOCRÍTICA
Estes pacientes geralmente apresentam uma série de pensamentos autocríticos automáticos, tanto em situações sociais quanto à encontros futuros, que originam mal-estar e que nunca são questionados pelos pacientes por que eles julgam-se certos. Tais cognições negativas são típicas e originam-se de esquemas negativos, como:
- “ Eu sou um chato”
- “ Eu sou tolo”
- “ Eu sou um fracasso”
- “ Eu sou ridículo”
- “ Eu não me enquadro”
- “ Sou burro”
Antes ou durante um encontro social, estes pacientes evitativos apresentam um fluxo de pensamentos automáticos negativos que prevê o que irá ocorrer :
- “ Eu não tenho nada a dizer”
- “ Eu vou fazer papel de idiota”
- “ Ele não vai gostar de mim”
- “ Ele vai me criticar”
- “ Não vou ter de nada interessante pra falar”
- “ não vou conseguir ser simpático”
SUPOSIÇÕES SUBJACENTES SOBRE OS RELACIONAMENTOS
Os esquemas dos pacientes evitativos também dão origem a suposições disfuncionais sobre os relacionamentos. Eles poderão acreditar que escondendo o que realmente acreditam ser, poderão enganar os outros daquilo que realmente acham que são:
- “ Eu preciso apresentar uma fachada para que eles gostem de mim”
- “ Se os outros me conhecessem realmente, não gostariam de mim”
- “ É perigoso chegarem muito perto e verem quem eu realmente sou”
- “ sou uma mentira, um fake”
Quando fazem amizade, eles fazem suposições acerca daquilo que devem fazer para preservar a amizade. Poderão mudar de opinião para evitar o confronto, buscando sempre satisfazer o desejo do outro:
- “ Eu preciso agradá-lo todo o tempo”
- “ Ele só gostará de mim se eu fizer tudo o que ele quiser”
- “ Eu não posso dizer não”
- “ Se eu o desagradar, ele mudará toda a visão que tem de mim e vai me rejeitar”
AVALIAÇÃO ERRÔNEA DAS REAÇÕES ALHEIAS
Os pacientes TEP têm dificuldade em avaliar as reações alheias. Podem interpretar erroneamente uma reação neutra ou positiva como sendo uma reação negativa. Podem buscar reações positivas de pessoas cujas opiniões são irrelevantes em suas vidas, como balconistas ou motoristas de ônibus. É vital que ninguém pense mal deles, devido à crença de que “se alguém me julgar negativamente, a crítica deve ser verdadeira” . É perigoso estarem em posição de serem avaliados porque as reações negativas ou até neutras de outras pessoas confirmam a crença de que são indesejáveis ou defeituosos. Eles não dispõem de critérios internos para julgarem-se a si mesmos, baseando-se unicamente em sua percepção do juízo dos outros.
DESCONSIDERAÇÃO DE DADOS POSITIVOS
Mesmo diante de evidências indiscutíveis aos olhos dos outros de que são aceitos e estimados, os pacientes evitativos as desconsideram. Acreditam que enganaram a pessoa, que o julgamento dela é falho ou que ela não dispõe de informações adequadas para vê-los claramente:
- “ Ele pensa que eu sou inteligente, mas eu o enganei”
- “ Ele vai acabar descobrindo que eu de fato não sou muito legal”
EVITAÇÃO COGNITIVA, COMPORTAMENTAL E EMOCIONAL
Eles evitam pensar sobre certos assuntos que geram mal-estar e agem segundo maneiras que lhes permitam continuar com esta evitação, emergindo, assim, um padrão típico. Mesmo quando tomam consciência dos sentimentos disfóricos, podem ter ou não noção dos sentimentos que acompanham a emoção. Como a sua tolerância à disforia é muito baixa, eles fazem algo para distraírem-se e sentirem-se melhor.
Assim, eles poderão interromper ou deixar de iniciar uma tarefa que planejaram realizar. Poderão pegar algo para ler, ligar a TV, ficar no computador, comer ou acender um cigarro, andar pela casa, etc. Ou seja, eles procuram uma distração para tirar os pensamentos desagradáveis da cabeça. Tal padrão de evitação cognitiva e comportamental, sendo reforçado por uma diminuição do mal-estar, por fim torna-se arraigado e automático.
Pode acontecer que o paciente tenha alguma consciência de sua evitação social. Invariavelmente, eles se criticam em temos globais e estáveis:
- “ Eu sou preguiçoso”
- “ Eu sou renitente”
Tais pronunciamentos reforçam as crenças sobre si mesmos quanto a serem inadequados ou defeituosos e os levam à desesperança. Eles não vêem que a evitação é a sua forma de enfrentar emoções incômodas. Em geral, eles não têm consciência de sua evitação cognitiva e comportamental, até que tal padrão lhes seja esclarecido.
ATITUDES QUANTO A EXPERIMENTAR DISFORIA
Os pacientes evitativos podem apresentar atitudes disfuncionais quanto a experimentar emoções disfóricas ou seja, que gerem desconforto interno:
- “ É insuportável sentir-se mal”
- “ Eu não deveria ter ficado ansioso”
- “ Eu deveria sentir-me sempre bem”
- “ As outras pessoas raramente sentem medo, embaraço ou mal-estar”
Estes pacientes acreditam que se permitissem a si mesmos sentirem-se disfóricos, seriam engolfados pelo sentimento incômodo e jamais seriam capazes de se recuperar. Temem a emoção avassaladora que esperam sentir no caso de perderem o controle e temem ser subjugados pela disforia e permanecerem sempre nela :
- “ Se eu deixar meus pensamentos extravasarem, serei esmagado”
- “ Se eu ficar ansioso, vou ao fundo do poço”
- “ Se eu me abater, perderei o controle e não serei mais capaz de funcionar”
DESCULPAS E RACIONALIZAÇÕES
Os pacientes evitativos têm um forte desejo de atingir seu objetivo a longo prazo, de estabelecer relacionamentos mais íntimos. Sentem-se vazios e solitários e desejam modificar suas vidas, ter amizades mais íntimas, emprego melhor, etc.
Eles geralmente tomam consciência daquilo que precisam fazer para realizar seus desejos mas o custo a curto prazo de experimentar emoções negativas parece-lhes excessivamente elevado. Eles elaboram milhões de desculpas para não fazerem o necessário para atingir seus objetivos:
- “ Eu não vou gostar de fazer aquilo”
- “ Eu vou me sentir pior se fizer aquilo”
- “ Eu vou fazer isso mais tarde”
- “ Não estou com vontade de fazer isso agora”
Quando vem o “mais tarde” ou o “ depois”, eles invariavelmente usam as mesmas desculpas, continuando com a evitação comportamental. Além disso, eles podem não acreditar que são realmente capazes de atingir seus objetivos. Eles fazem suposições:
- “ Não há nada que eu possa fazer para mudar a minha situação”
- “ Por que tentar?”
- “ Eu não vou conseguir, de qualquer jeito”
- “ É melhor perder por desistência do que tentar e inevitavelmente perder”
PENSAMENTO DESEJOSO
Os pacientes evitativos podem envolver-se em um pensamento desejoso relativo ao seu futuro. Podem acreditar que, algum dia, o relacionamento ou o emprego perfeito surgirá do nada, sem esforço de sua parte. Frequentemente, eles não acreditam que serão capazes de atingir seus objetivos mediante seus próprios esforços:
- “ Um dia eu vou acordar e tudo estará bem”
- “ Eu não consigo melhorar de vida sozinho”
- “ As coisas podem melhorar mas não vai ser por algo que eu faça”

SUMÁRIO
Os pacientes evitativos mantém profundas crenças negativas a respeito de si mesmos, provavelmente originárias da infância, quando as interações com uma pessoa significativa, rejeitadora e crítica os levou a ver a si mesmos como inadequados e inúteis. Socialmente, eles evitam situações onde as outras pessoas poderiam aproximar-se e descobrir seu “verdadeiro eu”. Comportamentalmente, evitam tarefas que engendrariam pensamentos que os fizessem sentir desconforto. Cognitivamente, evitam pensar sobre assuntos que produzam disforia. Sua tolerância ao desconforto é muito baixa e eles valem-se de “doses” de distração sempre que começam a sentir-se ansiosos, tristes ou entediados. Eles são infelizes com seu atual estado mas sentem-se incapazes de mudar mediante seus próprios esforços.